Wednesday, August 8, 2012

O poder da validação


Todo mundo é inseguro, sem exceção. Os super-confiantes simplesmente disfarçam melhor. Não escapam pais, professores, chefes nem colegas de trabalho.
Afinal, ninguém é de ferro. Paulo Autran treme nas bases nos primeiros minutos de cada apresentação, mesmo que a peça que já tenha sido encenada 500 vezes. Só depois da primeira risada, da primeira reação do público, é que o ator se relaxa e parte tranqüilo para o resto do espetáculo. Eu, para ser absolutamente sincero, fico inseguro a cada novo artigo que escrevo, e corro desesperado para ver os primeiros e-mails que chegam.
Insegurança é o problema humano número 1. O mundo seria muito menos neurótico, louco e agitado se fôssemos todos um pouco menos inseguros. Trabalharíamos menos, curtiríamos mais a vida, levaríamos a vida mais na esportiva. Mas como reduzir esta insegurança?
Alguns acreditam que estudando mais, ganhando mais, trabalhando mais resolveriam o problema. Ledo engano, por uma simples razão: segurança não depende da gente, depende dos outros. Está totalmente fora do nosso controle. Por isso segurança nunca é conquistada definitivamente, ela é sempre temporária, efêmera.
Segurança depende de um processo que chamo de "validação", embora para os estatísticos o significado seja outro. Validação estatística significa certificar-se de que um dado ou informação é verdadeiro, mas eu uso esse termo para seres humanos. Validar alguém seria confirmar que essa pessoa existe, que ela é real, verdadeira, que ela tem valor.
Todos nós precisamos ser validados pelos outros, constantemente. Alguém tem de dizer que você é bonito ou bonita, por mais bonito ou bonita que você seja. O autoconhecimento, tão decantado por filósofos, não resolve o problema. Ninguém pode autovalidar-se, por definição.
Você sempre será um ninguém, a não ser que outros o validem como alguém. Validar o outro significa confirmá-lo, como dizer: "Você tem significado para mim". Validar é o que um namorado ou namorada faz quando lhe diz: "Gosto de você pelo que você é". Quem cunhou a frase "Por trás de um grande homem existe uma grande mulher" (e vice-versa) provavelmente estava pensando nesse poder de validação que só uma companheira amorosa e presente no dia-a-dia poderá dar.
Um simples olhar, um sorriso, um singelo elogio são suficientes para você validar todo mundo. Estamos tão preocupados com a nossa própria insegurança, que não temos tempo para sair validando os outros. Estamos tão preocupados em mostrar que somos o "máximo", que esquecemos de dizer aos nossos amigos, filhos e cônjuges que o "máximo" são eles. Puxamos o saco de quem não gostamos, esquecemos de validar aqueles que admiramos.
Por falta de validação, criamos um mundo consumista, onde se valoriza o ter e não o ser. Por falta de validação, criamos um mundo onde todos querem mostrar-se, ou dominar os outros em busca de poder.
Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente são, e não pelo que gostaríamos que fossem. Mas, justamente graças à validação, elas começarão a acreditar em si mesmas e crescerão para ser o que queremos.
Se quisermos tornar o mundo menos inseguro e melhor, precisaremos treinar e exercitar uma nova competência: validar alguém todo dia. Um elogio certo, um sorriso, os parabéns na hora certa, uma salva de palmas, um beijo, um dedão para cima, um "valeu, cara, valeu".
Você já validou alguém hoje? Então comece já, por mais inseguro que você esteja.
Stephen Kanitz
Artigo publicado na Revista Veja, edição 1705, ano 34, nº 24, 20 de junho de 2001, pág.22

Saturday, June 16, 2012

Horas Rubras
Horas profundas, lentas e caladas 
Feitas de beijos rubros e ardentes, 
De noites de volúpia, noites quentes 
Onde há risos de virgens desmaiadas... 

Oiço olaias em flor às gargalhadas... 
Tombam astros em fogo, astros dementes, 
E do luar os beijos languescentes 
São pedaços de prata p'las estradas... 

Os meus lábios são brancos como lagos... 
Os meus braços são leves como afagos, 
Vestiu-os o luar de sedas puras... 

Sou chama e neve e branca e mist'riosa... 
E sou, talvez, na noite voluptuosa, 
Ó meu Poeta, o beijo que procuras! 

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"


Friday, February 17, 2012

O moço que não tinha nome


Caravaggio - Rapaz levando um cesto de frutas 
O moço que não tinha nome


Era um moço que não tinha nome. Nem nunca tinha tido. Um moço que, não tendo nome, também não tinha rosto.
-Psiu! - chamavam-no as pessoas.
E ele, acostumado desde pequeno, atendia.
Porém, quando se aproximava, quem o tinha chamado via em lugar do rosto dele seu próprio rosto refletido, como num espelho. E enchia-se de espanto.
Assim, sem olhos ou sorriso que fossem seus, ninguém conseguia escolher um nome que ele se ajustasse, tornando-o único, impossível de ser confundido com qualquer outro.
Era muita ausência para ele carregar. E cedo decidiu que, tão logo estivesse crescido, dono enfim da sua vida, partiria à procura do rosto que lhe pertencia e que, certamente, havia de estar perdido em alguma parte do mundo.
Chegada a idade, juntou suas coisas, saiu da aldeia e começou a andar.
Andou e andou. Nos castelos que lhe davam hospedagem, examinava ansioso os quadros e as tapeçarias, aproximava-se atento das esculturas, mesmo as mais miúdas que enfeitavam às vezes uma sopeira de prata ou o cabo de um talher. Quem sabe, entre tantos cavalheiros retratados, entre tantos homens pintados e bordados, não estaria algum cujo rosto, por engano ou descuido, fosse o seu? Até sobre os bastidores das damas se debruçava, na esperança de que o ponto que vinham de fazer estivesse arrematando um nariz, o traço de uma sobrancelha que a ele caberia.
Desse modo viajava, fazendo seu rumo como quem atravessa um rio pulando de pedra em pedra.
Passava de uma cidade a outra, de uma casa a outra, sempre procurando, nas famílias que se reuniam ao redor das lareiras, nas multidões das feiras, e até nos broches de esmalte que enfeitavam os decotes, nos camafeus e nas pedras entalhadas dos anéis.
Sem nunca, naqueles anos todos, afastar seu caminho da procura.
E nesse caminho, um dia, encontrou uma moça que voltava da fonte.
Ia tão atenta para não entortar o cântaro equilibrado no alto da cabeça, que nem o viu chegar pela trilha. E quando ele se aproximou, oferecendo-se para carregar o cântaro, foi com surpresa agradecida que encarou o rosto vazio. Mais do que com espanto.
Andando devagar, para prolongar a caminhada, o moço acompanhou-a até em casa. Mas na manhã seguinte, bem cedo, foi esperá-la na fonte. E quando ela chegou, novamente se ofereceu para carregar o cântaro.
Assim aconteceu também no outro dia, e nos que vieram depois. Agora já se demoravam sentados à beira da nascente, conversando sem pressa, enquanto o tempo escorria junto com o regato. E a cada novo encontro, ela olhava os próprios olhos refletidos nele e os via ficarem mais brilhantes, olhava a sua boca e só lhe via sorrisos.
Pouco a pouco, a ausência do rosto foi perdendo a importância. O moço tinha tantas coisas para contar, tanta doçura na voz, que ela passou a achá-lo mais e mais bonito. Era como se nada lhe faltasse.
Nem mesmo o nome. Pois não precisava chamá-lo, já que sempre o encontrava à sua espera, não importava a hora em que chegasse.
Porém, na fonte, começavam a boiar as primeiras folhas mortas. O regato, que tinha levado o verão, lentamente levou o outono. E afinal o inverno chegou, engolindo as tardes em seu ventre frio. Breve a fonte gelaria. E a moça percebeu que, sem água para buscar, não teria mais desculpa para sair de casa.
Envolta no xale, ainda foi à fonte durante alguns dias. Mas naquela manhã em que as beiradas do regato começavam a fazer-se de cristal, o medo de perder o moço atravessou-a como um vento. Quis retê-lo, chamá-lo. Em ânsia estendeu-lhe as mãos. E quase sem sentir, num sopro, Amado! foi o nome que lhe deu.
Ondejou seu reflexo no rosto do moço.
Lentamente, seus olhos espelhados perderam a nitidez, desfez-se o contorno dos lábios. Naquele vazio, só restava uma névoa. E na névoa, trazidos de longe pelo chamado de um nome, começaram a aflorar duas sobrancelhas espessas, depois a aresta de um nariz, a sólida linha de um queixo, a ampla testa.
Traços cada vez mais nítidos, desenhando o rosto enfim encontrado.
Pingentes de gelo formavam-se nas folhas.
Adensavam-se as nuvens. Mas ele, o homem que agora tinha rosto e nome, sorria como um sol.

Marina Colasanti

Sunday, February 12, 2012

I will always love you

How to forget this movie, thins scene?
Stay with God, Whitney Houston!

The greatest love of all

Eis uma canção que me envolve, primeiramente, pela música, em seguida, pela voz, em terceiro, pela letra...
"the greatest love off all is happening to me..."


Sunday, February 5, 2012

Não estás deprimido, estás distraído…



Poesia de Fagundo Cabral 

Não estás deprimido, estás distraído… distraído da vida que te povoa. Tens coração, cérebro, alma e espírito… então como podes te sentir pobre e azarado?
Distraído da vida que te rodeia: golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios. Não caia no erro de teu irmão, que sofre por um ser humano quando o mundo tem 5,6 bilhões. Além disso, não é tão ruim viver só. Eu vivo bem, decidindo a cada instante o que quero fazer. E graças à solidão me conheço – algo fundamental para viver.
Não caias no erro de teu pai, que se sente velho porque tem 70 anos, esquecendo que Moisés conduziu o êxodo aos 80 e Rubinstein interpretava Chopin como ninguém aos 90. E isso só para citar dois casos conhecidos.
Não estás deprimido, estás distraído… Por isso acreditas que perdeste alguma coisa, o que é impossível, porque tudo te foi cedido. Tu não fizestes um único fio de cabelo em sua cabeça e, portanto, não podes ser dono de nada. Além disso, a vida não te tira coisas, mas sim te liberta das coisas. Te torna leve para poder voar mais alto, para que alcances a plenitude. Do berço ao túmulo é uma escola, de modo que aquilo que chamamos de problemas são na verdade lições. E a vida é dinâmica… por isso está em constante movimento; por isso só deves estar atento ao presente. Por isso minha mãe dizia: “Eu me encarrego do presente, o futuro é assunto de Deus”. Por isso Jesus dizia: “O amanhã não interessa; ele trará nova experiência… a cada dia basta o seu próprio afã”.
Não perdeste ninguém… o que morreu simplesmente se adiantou, porque para lá vamos todos. Além disso, o melhor dessa pessoa – o amor – segue em teu coração… Quem poderia dizer que Jesus está morto? Não há morte, há mudança… E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, Michelangelo, Whitman, Santo Agostinho, Madre Teresa, sua avó e minha mãe, que acreditava que a pobreza está mais próxima do amor, porque o dinheiro nos distrai com muitas coisas e nos distancia porque nos torna desconfiados…
Não encontro a felicidade, e é tão fácil… só deves escutar teu coração antes que intervenha tua cabeça, que está condicionada pela memória e complica tudo com coisas velhas, com ordens do passado, com prejuízos que fazem adoecer, que encarceram… A cabeça é que divide, ou seja, que empobrece; a cabeça é que não aceita que a vida é como é e não como deveria ser…
Faça somente o que ama e serás feliz. E o que faz o que ama está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando tem que chegar, porque o que deve ser será, e virá naturalmente. Não faças nada por obrigação ou por compromisso, senão por amor. Então haverá plenitude e nessa plenitude tudo é possível, sem esforço, porque te move a força natural da vida… a que me levantou quando o avião que levava minha esposa e minha filha caiu… a que me manteve vivo quando os médicos diagnosticaram-me 3 ou 4 meses de vida.
Deus te encarregou de um ser humano… e és tu. Deves fazer livre e feliz a ti mesmo. Depois poderá compartilhar a vida verdadeira com os outros. Lembre de Jesus: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Reconcilia-te contigo. Coloca-te frente ao espelho e pensa que essa criatura que estás vendo é obra de Deus e decide agora mesmo ser feliz, porque a felicidade é uma conquista, não é algo que vai chegar de fora… Além disso, a felicidade não é um direito, senão um dever, porque se não és feliz, estás amargurando a todo o bairro… um só homem que não teve nem talento nem valor para viver mandou matar cem milhões de irmãos judeus…
Há tantas coisas para gozar e nosso tempo na terra é tão curto, que sofrer é uma perda de tempo. Para desfrutar, temos a neve do inverno e as flores da primavera, o chocolate de Perugia, a baguette francesa, os tacos mexicanos, o vinho chileno, os mares e os rios, o futebol dos brasileiros e o cigarro de Ches Davillovi, as Mil e Uma Noites, a Divina Comédia, Don Quixote, Pedro Páramo, os boleros de Manzanero e a poesia de Whitman, Mahler, Brahms, Ravel, Debussy, Mozart, Chopin, Beethoven, Caravaggio, Rembrandt, Velasquez, Jesán, Picasso e Tamayo, entre tantas maravilhas.
E se tu tens câncer ou AIDS, duas coisas podem acontecer e as duas são boas: se a doença te vence, te livras do corpo, que está enfermo; “tenho fome, tenho frio, tenho sonhos, tenho desejos, tenho razão, tenho dúvidas”… E se vences a doença, serás mais humilde, mais agradecido e, portanto, mais facilmente serás feliz… Livre do tremendo peso da culpa, da responsabilidade, da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente, como deve ser.
Não estás deprimido, estás desocupado… Ajuda a criança que te pede ajuda… essa criança será sócia de teu filho. Ajuda aos velhos e os jovens te ajudarão quando tu sejas. Porque o serviço é uma felicidade segura, como desfrutar da natureza e cuidá-la para o que vier… Dá sem medidas e te darão sem medidas! Ama até converter-te no amado, mais ainda, ama até converter-te no mesmíssimo amor! E que não te confundam uns poucos homicidas e suicidas: o bem é maioria, porém não se nota porque é silencioso. Uma bomba faz mais ruído que uma carícia porém para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida… O bem se alimenta de si mesmo, e o mal destrói a si mesmo… Se os maus soubessem que bom negócio é ser bom, seriam bons ainda que fosse por puro interesse…
Não estás deprimido, estás distraído… se escutares ao “outro”, ao que levas dentro, saberias tudo… e então encontrarias algo para ti e então levarias isso constantemente e já não haveria confusão, senão matizes… E nessa serenidade não buscarias nada e então encontrarias tudo… E estando no presente dirias e farias o que deve ser dito e feito a cada momento, natural e graciosamente, sem esforço… Isso faria com que tua relação com os demais fosse plena e ao crescer no amor serias mais criativo, sem limites nem condições. A ignorância nos faz sentir encerrados e mortais, quer dizer, que nos encerramos e limitamos por nós mesmos… O medo nos distrai do amor e o sábio é valente porque sabe que não existem nem mesmo medidas…
Não estás deprimido, estás distraído das maravilhas que acontecem ao teu redor: de nascimentos a colheitas, de revoluções a concertos, de campeonatos de futebol a viagens interplanetárias… não estás deprimido por algo que aconteceu, senão distraído do TODO, que é agora mesmo.

Saturday, January 28, 2012

Que presentes te darei?



Affonso Romano de Sant'Anna

Que presente te darei, eu que tanto quero e pouco dou, porque mesquinho, 
egoísta, distraído não te cumulo daquilo que deveria cumular ?
Deveria desatar  inúmeros presentes ao  pé da  árvore, entreabrindo  jóias, 
tecidos,  requintados e pessoais objetos, ou deveria dar-te o que não posso 
buscar lá fora, mas o que  em mim está  fechado e mal  sei desembrulhar ?
Gostaria de dar-te coisas  naturais, feitas com a mão, como fazem os camponeses, 
os artesãos, como faz a mulher  que ama e prepara o  Natal 
com seus  dedos e receitas, adornos e  atenção.
Te dar, talvez, um pedaço de praia primitiva, como aquelas do  Nordeste, 
ou de antigamente - Búzios e Cabo Frio; um pedaço de mar das Ilhas do Caribe,
onde a água e o amor são transparentes e onde a areia é fina e brilhante e, 
sozinhos,  habitam a  eternidade,  os amantes.
Te dar aquele verso de canção um dia ouvida não sei mais aonde,
se numa tarde de chuva, se entre os lençóis cansados;  um verso, 
uma  canção ou talvez o puro som de um saxofone ao  fim do dia, 
som que  tem qualquer coisa de promessa e melancolia.
Fugir uma tarde contigo para os motéis, quando todos os homens se perdem
nos papéis e escritórios, números e tensões: fugir contigo para uma tarde assim, 
um espaço de amor entreaberto na peça que nos prega a burocracia dos gestos.
Gravar numa fita as canções que me fazem lembrar de ti e ouví-las, ou tocar de
algum modo, em algum cassete as frases que disseste, que em mim gravaste:
frases  líricas, precisas, que  quando estou  cinza, relembro e  me  iluminam.
Te enviar todos os cartões que colecionas, de todos os lugares que conheço ou 
que tu nem imaginas, ir a essas  paisagens e ilhas e habitá-las 
com os  selos e palavras de intermitente paixão.
Dar-te aquela casa de campo entre montanhas, aquele amor entre a neblina,
aquele espaço fora do mundo, fora de outros espaços, sem telefone, 
sem estranhas ligações, para ali nos ligarmos um no outro em una e dupla solidão.
Se queres jóias, te darei. Aqueles corais que vendem na Ponte Vecchia, em Florença;
o âmbar ou as pérolas que expõem nas lojas do Havaí; aquelas pedras de vidro 
para iridescentes colares, que vendem em Atenas, ao pé da Plaka, 
ao pé da Acrópole, que amorosa nos contempla.
Te dar numa viagem os castelos do Loire, e sair comendo e rindo juntos no roteiro
gastronômico franco-italiano; ali comendo e aqueles vinhos bebendo, 
de tudo nos  esquecendo, sobretudo dos remorsos tropicais 
de quem tem sempre ao lado um faminto desamparado, de culpa nos ferindo.
Te darei flores. Sempre planejei fazer isto.
Tão simples: de manhã acordar displicente e começar a colher flores sob a cama. 
Ir  tirando  buquês de  rosas,  margaridas,  vasos  de íris,  orquídeas 
que estão desabrochando e, uma a uma, de flores ir te cumulando. 
E amanhecendo  dirás:
 o amado  hoje está  doce, seu amor aflorou e está me perfumando.
Escrever bilhetes pela casa inteira, metê-los entre as roupas, armários, prateleiras, 
pra que na minha ausência comeces a desdobrar recados daquele que nunca 
se ausentou, embora esse ar de quem vive partindo, mas, se alguma vez partiu 
partido foi para reunido regressar.
Te dar um gesto simples. Passar a mão de repente sobre tua mão, 
como se apalpa a  vida ou fruto que pede para ser colhido.
Te dar um olhar, não aquele olhar distraído, alienado de quem está 
nas coisas prosaícas perdido, mas um olhar de quem chegou  inteiro
e que se entrega enternecido e desamparado dizendo: 
olha,  sou  teu,  agora  veja  lá o  que  vai  fazer  comigo!