Tuesday, December 23, 2008

" Seja uma fonte, não um dreno." (Rex Hudler)

Saturday, December 6, 2008

O Primeiro Amor

Questão é curiosa nesta Filosofia, qual seja mais precioso e de maiores quilates: se o primeiro amor, ou o segundo. Ao primeiro ninguém pode negar que é o primogénito do coração, o morgado dos afectos, a flor do desejo, e as primícias da vontade. Contudo, eu reconheço grandes vantagens no amor segundo. O primeiro é bisonho, o segundo é experimentado; o primeiro é aprendiz, o segundo é mestre: o primeiro pode ser ímpeto, o segundo não pode ser senão amor. Enfim, o segundo amor, porque é segundo, é confirmação e ratificação do primeiro, e por isso não simples amor, senão duplicado, e amor sobre amor. É verdade que o primeiro amor é o primogénito do coração; porém a vontade sempre livre
não tem os seus bens vinculados. Seja o primeiro, mas não por isso o maior.

Padre António Vieira, in "Sermões"

Monday, December 1, 2008

"Ninguém se agasta tanto do desprezo como aqueles que mais o merecem." (Marquês de Maricá)

Sunday, November 23, 2008


"Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enloqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha mãe."


(Sebastião da Gama)


Quando eu nasci, era manhã de domingo
Dia quente de janeiro
Na casa simples, bucólica
minha mãe me esperava,
cercada pela parteira...

Tuesday, November 18, 2008

A lei do palhaço

A lei do palhaço

"Conta certa história que, numa determinada cidade, apareceu um circo. Entre os seus artistas havia um palhaço com um poder de divertir, sem medida, as pessoas da platéia. O riso que provocava era tão bom, tão profundo e natural que se tornava terapêutico. Todos os que padeciam de tristezas agudas ou crônicas passaram a ser indicados pelo médico do lugar para assistirem ao tal artista, que ele mesmo tinha visto atuar e que possuia o dom de fazer reduzir ou até mesmo eliminar angústias.

Um dia, porém, um morador desconhecido, tomado de profunda depressão, procurou o médico. Este, sem relutar, indicou o circo como o lugar de cura de todos os males daquela natureza, de abrandamento de dores da alma, de iluminação de todos os cantos escuros de um "jeito perdido" de ser, de tristezas com ou sem causa. O homem nada disse, levantou-se, caminhou em direcção à porta e quando já estava saindo, virou-se, olhou o médico nos olhos e sentenciou:

"Não posso procurar o circo... aí está o meu problema: eu sou o palhaço!"

Sunday, November 9, 2008

Pensamentos

"O verdadeiro professor defende os seus alunos contra a sua própria influência".
Amos Alcott



"Minorias criativas e dedicadas quase sempre tornam o mundo melhor."
(Martin Luther King)

"Ensinam-se os homens a pedir desculpas por suas fraquezas e as mulheres, a pedir desculpas por suas forças." (Lois Wise)


"Os homens apressam-se mais em retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança um prazer". (Tácito)

" Tolo é aquele que naufragou duas vezes seus navios e continua culpando o mar..."
(Publilus Syrus - poeta italiano)


"Hipótese é uma coisa que não é, mas a gente faz de conta que é, pra ver como seria se ela fosse."
(não sei de quem é)

"Reaja inteligentemente mesmo a um tratamento não inteligente."
(Lao-Tse)

"Quando você julga os outros, não os define, define a si mesmo."
(Wayne W. Dyer)

"Dificuldades reais podem ser resolvidas; apenas as imaginárias são insuperáveis."
(Theodore N. Vail)

"... e nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço!''
(Clarice Lispector)

"A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais...."
(Clarice Lispector)

"A memória é algo cheio de truques e esquecer significa, freqüentemente, o meio pelo qual a mente se defende contra dores passadas e remorsos por oportunidades perdidas. "
(Irwin Shaw)

"Os espíritos tranqüilos não se confundem, continuam em seu ritmo próprio na ventura ou na desgraça, como os relógios durante as tempestades."
(Robert Louis Stevenson)

"Não há progresso sem mudança. E, quem não consegue mudar a si mesmo, acaba não mudando coisa alguma. "
(George Bernard Shaw)

"Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta."
(Fernando Pessoa)

"Antes de sermos pais e mães, somos seres humanos, passíveis de falhas e erros.... então, a única coisa que podemos aconselhar aos nossos filhos, através de experiência já vivenciada, é como não repetirem os nossos erros."
(Claudia Belucci)

"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."
(Fernando Pessoa)

"O verdadeiro professor defende os seus alunos contra a sua própria influência".
(Amos Alcott)

"Há pessoas que são "unicamente como a roseira e o cardo que picam e arranham apenas porque não podem de outra forma proceder..." (Bacon)

" A experiência do perdão e reconciliação é uma das mais sublimes pelas quais um ser humano pode passar.

Há algo de sagrado no ato de perdoar.

Nunca o homem é tão parecido com Deus quanto na hora em que perdoa.

Esse ato abençoa, restaura e reaproxima.
O perdão é um remédio eficaz para todos os males da alma!"

"Não és bom porque te louvam, nem desprezível porque te censuram; és o que és, e o que poderão dizer de ti, não te fará melhor do que vales aos olhos de Deus."
(Autor desconhecido)

Saturday, November 8, 2008

Grandes são os desertos

ÁLVARO DE CAMPOS

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes -
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem).
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens,
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.

Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Thursday, October 2, 2008

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].

Clarice Lispector

Saturday, September 6, 2008

"Se uma coisa pequena tem o poder de fazê-lo irritado, isto não lhe indica nada a respeito do seu próprio tamanho??"

" Tolo é aquele que naufragou duas vezes seus navios e continua culpando o mar..."

Saturday, August 23, 2008

"A recordação é uma forma de reencontro. O esquecimento é uma forma de liberdade." Gibran Kalil Gibran

"A pessoa desprovida do poder de perdoar é desprovida do poder de amar" Martin Luther King

Friday, August 22, 2008

Em cada indelicadeza que pratico
assassino um pouco aqueles que me amam, em cada desatenção não sou nem educado, nem cristão, em cada olhar de desprezo, alguém termina magoado, em cada gesto de impaciência, dou uma bofetada invisível naqueles que convivem ao meu lado, em cada ressentimento, revelo meu amor próprio ferido, em cada palavra áspera que falo, perco uns pontinhos no céu, em cada omissão que pratico, rasgo uma página do evangelho, em cada oração que eu não faço, eu peco, em cada fofoca que me envolvo, peco contra o silêncio. Porém para tudo há o reverso, pois em cada pranto que enxugo, eu torno alguém mais feliz, em cada ato de fé que pratico, eu canto um hino à vida, em cada sorriso que espalho, eu planto uma esperança, em cada espinho que arranco, eu curo uma ferida, em cada semente que espalho colho um pouco de Amor...
Cabe a nós mesmos saber que destino queremos dar a nossa vida e ao nosso coração, pois em cada passo certo que tomo, um Anjo diz Amém!

Eu tinha essa alma

Eu tinha essa alma toda iluminada,
como as vilas fantásticas das eras
dos dragões, salamandras e quimeras
de um sonho remotíssimo de fada...
Eu tenho esta alma toda de tristezas
vestida, e luto e lágrimas e opalas..
- Porque os Degoladores de Princesas
por mim passaram para degolá-las...

Cecília Meireles




Saturday, August 16, 2008

NÃO ESTRAGUE O SEU DIA




"A sua irritação não solucionará problema algum...


As suas contrariedades não alteram a natureza das coisas....


Os seus desapontamentos não fazem o trabalho que só o tempo conseguirá realizar....


O seu mau humor não modifica a vida...


A sua dor não impedirá que o Sol brilhe amanhã sobre os bons e os maus...


A sua tristeza não iluminará os caminhos...


O seu desânimo não edificará a ninguém....


As suas lágrimas não substituem o suor que você deve verter em benefício da sua própria felicidade....


As suas reclamações, ainda mesmo afetivas, jamais acrescentarão nos outros um só grama de simpatia por você...


Não estrague o seu dia....


Aprenda, com a Sabedoria Divina, a desculpar infinitamente, construindo e reconstruindo sempre para o Infinito Bem."


CHICO XAVIER.

Tuesday, August 12, 2008

Eis-me: uma pessoa em construção, como um bebê que ensaia os primeiros passos, cai, levanta, apóia-se em algo, alguém, e segue, e alegra-se por conseguir manter-se alguns segundos sobre os próprios pés... com ou sem platéia, com ou sem torcida, na eterna corrida ao encontro de si mesma...

Quando fazemos tudo

Isso é muita sabedoria


Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou  a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue; outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer.

 Clarice Lispector

Sunday, August 10, 2008

Ensinam-se

"Ensinam-se os homens a pedir desculpas por suas fraquezas e as mulheres,
a pedir desculpas por suas forças."
Lois Wise



Friday, August 8, 2008

Não odeies

"Não odeies o teu inimigo, porque, se o fazes, és de algum modo o seu escravo. O teu ódio nunca será melhor do que a tua paz." (Jorge Luis Borges)


"O ódio é uma tendência a aproveitar todas as ocasiões para prejudicar aos demais." (Plutarco)


"Muitos te odiarão se te amares a ti próprio." (Erasmo de Rotterdam)


"Quando odiamos alguém, odiamos em sua imagem algo que está dentro de nós." (Herman Hesse)


"Não permita que ninguém o faça descer tão baixo a ponto de você sentir ódio." (Martin Luther King)


"Chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais segura de atrair outras." (William Shakespeare)

Thursday, August 7, 2008

Duas coisas

"Há duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos homens." Albert Einstein

"Não levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão." Machado de Assis

"Nunca a alma humana surge tão forte e nobre como quando renuncia à vingança e ousa perdoar uma ofensa."
E.H.Chapin

Muitas vezes não temos tempo para dedicar aos amigos, mas para os inimigos temos todo o tempo do mundo!  Leon Uris

Sunday, July 27, 2008


"Às vezes não sei o que faço nas folhas do meu caderno, mas cada linha que traço é linha do meu interno".


Thursday, July 17, 2008

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA

Há algumas coisas na vida que todos deveriam um dia experimentar, a fim de valorizar o que têm, de maximizar os bons momentos e colocar-se no lugar do outro...
Uma dessas coisas é um dia conviver, seja por amizade, seja profissionalmente, com pessoas especiais.
Porém nem todos têm estrutura para tal, assim, recomendo o filme O escafandro e a borboleta.

O escafandro e a borboleta

Jean-Dominique Bauby, nascido em 1952, pai de dois filhos, era redactor-chefe da revista francesa Elle quando foi vítima de um locked-in syndrome, uma doença rara, que o deixou lúcido intelectualmente, mas paralisado por completo, só podendo respirar e comer por meios artificiais e mover o olho esquerdo.

Com este olho piscava uma vez para dizer sim e duas vezes para dizer não. Com ele chamava também a atenção do seu visitante para as letras do alfabeto, formando palavras, frases, páginas inteiras. Assim escreveu este livro: todas as manhãs, durante semanas, decorou as suas páginas antes de ditá-las, depois de as ter corrigido mentalmente durante a noite.

"Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.

Não preciso de reflectir durante longo tempo para saber onde me encontro e recordar-me de que a minha vida sofreu uma reviravolta naquela sexta-feira, dia 8 de Dezembro do ano passado. Até essa altura, nunca tinha ouvido falar do tronco cerebral. Naquele dia descobri abruptamente essa peça fundamental do nosso computador de bordo, passagem obrigatória entre o cérebro e os terminais nervosos, quando um acidente cardio-vascular me deixou o dito tronco fora do circuito. Antigamente chamava-se-lhe “ligação ao cérebro” e a sua falta provocava muito simplesmente a morte. O progresso das técnicas de reanimação tornou o castigo mais sofisticado. É possível escapar, mas mergulha-se naquilo que a medicina anglo-saxónica baptizou muito justamente com o nome de locked-in-syndrome: paralisado da cabeça aos pés, o paciente fica encerrado dentro de si próprio, com o espírito intacto e os batimentos da pálpebra esquerda como único meio de comunicação.

Evidentemente, o principal interessado é o último a ser posto ao corrente dessas prerrogativas. Pela minha parte, tive direito a vinte dias de coma e algumas semanas de nevoeiro antes de me aperceber verdadeiramente da extensão dos danos. Só emergi verdadeiramente no fim de Janeiro, neste quarto 119 do Hospital Marítimo de Berck, onde agora penetram os alvores da madrugada.

É uma manhã vulgar. As sete horas, o carrilhão da capela recomeça a pontuar a fuga do tempo, de quarto em quarto de hora. Após a trégua da noite, os meus brônquios obstruídos põem-se a roncar ruidosamente. Crispadas sobre o lençol amarelo, as minhas mãos incomodam-me, sem que consiga determinar se estão a arder ou geladas. Para lutar contra o anquilosamente, desencadeio um movimento reflexo de alongamento que faz mover os braços e as pernas alguns milímetros. Tanto basta, por vezes, para aliviar um membro dorido.

O escafandro torna-se menos opressivo e o espírito pode vagabundear. como uma borboleta. Há tanta coisa a fazer. É possível elevar-me no espaço ou no tempo, partir a voar para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas. É possível ir visitar a mulher amada, deslizar junto dela e acariciar o seu rosto, ainda adormecido. É possível construir castelos no ar, conquistar o Tosão de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar os sonhos de criança e os sonhos de adulto.

Basta de dispersão. É sobretudo necessário que eu componha o início deste diário de viagem imóvel, para estar pronto quando o enviado do meu editor vier recolher este ditado feito letra a letra. Na minha cabeça, mastigo dez vezes cada frase, corto uma palavra, acrescento um adjectivo, e decoro o meu texto, parágrafo a parágrafo.

Sete e meia. A enfermeira de serviço interrompe o curso dos meus pensamentos. Segundo um ritual bem ensaiado, corre a cortina, verifica a traqueotomia e o gota-a-gota, e acende a televisão com vista à obtenção de informações. De momento, um desenho animado conta a história do sapo mais rápido do Oeste. E se eu formulasse o voto de ser transformado em sapo?"

Bauby faleceu a 9 de Março de 1997, mas deixou este seu testemunho impressionante, bem escrito, e melhor traduzido, do que é ter um intelecto vivo dentro de um corpo morto.

Jean-Dominique Bauby, O escafandro e a borboleta, Livros do Brasil, 1999.


Wednesday, June 25, 2008

Mostra de Arte japonesa


No dia 23 fomos à abertura da Mostra de Arte Japonesa, que é parte das comemorações dos 100 anos da imigração japonesa ao Brasil.
Maravilhosas as obras!

Saturday, June 21, 2008

Eu, por mim mesma

Sou a Eliana, que nasceu no interior do estado do Paraná, que tem quatro irmãos e dois filhos, que estudou na escola rural Martim Afonso de Sousa, que no trajeto diário de 4 anos para a escola assistiu ao asfaltamento da saída para Guaíra, que presenciou a mecanização das terras para a produção de soja, que viu as queimadas e a fuga dos preás... que adorava o cheiro da hortelã sendo ceifada pelos alfanges e que assistiu na escola ao primeiro filme da sua vida "Se meu fusca falasse", que escorregava nos barrancões para o delírio da mãe que tinha que lavar as roupas vermelhas da terra roxa. Que catava vaga-lumes cantando "bagalém tem tem" enquanto as vizinhas rezavam as novenas... que brincava de anel, de mês de boca de forno... que viu papai-noel de sobretudo preto e não vermelho, e depois com túnica branca, no breu da noite, perguntando entre dentes sobre nós.... que descobriu o ninho que o coelhinho tinha feito no meio das roupas da nona... que teve uma catequista de nome Dóris inspiração para o nome da própria filha, que levou soco no estômago da Fátima, mas que não se desgrudava dela, que ficava incrédula sobre a chegada do ano dois mil, pois lá, estaria com 33 anos, imaginem!! Que soltava barquinhos de papel na enxurrada com os irmãos e fazia pelotas de argila e colava pétalas de gerânios nas unhas! Sou aquela que comeu goiaba e ingá e mamão e morango e lima da pérsia colhidos do próprio pé, sem lavar fruta nem mão... que apreciava demais o pomar do seu Pedro, com suas poncãs imensas, que ficou com dó do Antônio Carlos quando ele apanhou por ter se cortado com a enxada, que achou poética a inédita geada de 73 que detonou o cafezal do nono... procurava pedrinhas coloridas no monte de areia e q viu a mãe ir ao hospital com vestido verde de bolinhas brancas para ter a irmã “meio-gêmea”... que foi à escola de saia de pregas e camisa branca de gola na garupa da bicicleta do Evi e que tinha pavor do prof. Paschoal, diretor austero que conferia a cor das meias... a que ouvia a rádio Jornal, e não só isso, participava dos programas ao vivo, acreditem. Que achava o máximo a calça Lee da tia Luiza... que teve vestido de kombi e tirou foto com o rádio...
A menina que foi ao casamento da Teresa com o Auro, que conheceu a senhorita Shinoda, corcunda por conseqüência da Bomba Atômica, que amava as sempre-vivas naquela chácara a caminho da escola... que atravessou pinguela para ir ao velório do coleguinha de escola que morreu de crupe... que erguia as folhas da violeteira para conferir as violetas e que era apaixonada pelo pé de jasmim, e que, por outro lado, não simpatizava com o pé de marmelo muito menos com os de pêssego... que ouviu o avô tocar o Hino Nacional com folha de pêssego, assim como também o louro cantando o mesmo Hino, que ouvia rádio e repartia a mangueira de ouvido com os irmãos, pacificamente, pelo que se lembra... que ouvia com admiração a meia dúzia de compactos de vinil que o pai obteve a duras penas... que se surpreendeu com o primeiro supermercado "pegue e pague" da cidade, que viu voarem panfletos do mdb em prol do Koite Dodo, que observava a quilômetros os cortejos de miniaturas de carros rumo ao cemitério, que esquartejava grilos e fazia grinaldas com flores de café, e que comia o café ainda vermelho, porque era dulcíssimo, que ganhou como prêmio de maior cdf da história da antes mencionada escola uma linda boneca toda de plástico, e um livro chamado O gato azeviche que não canso de procurar sem encontrar, que até hoje não se conforma com aquele 99 atribuído pela prof. Tereza na prova só porque escreveu muinto e não muito, que tomou capilé e comeu bolo com confeitinhos coloridos, que usou vestido de xadrezinho laranja e azul, coisa mais linda do mundo, e segurou o canudo de conclusão do primário para a foto eternizante... que passou a infância cercada de pessoas maravilhosas, simples, que conversavam horas na roda de chimarrão... sou a menina que acompanhava a mãe quando ia à mina lavar roupa com a dona Isabel, que se encantava com as libélulas que voavam sobre o laguinho, que catava contas para fazer colares e que ficava a tarde toda por ali, só de companhia. Que conheceu a taboa e o chapéu-de-couro, e o funcho e a erva-doce, e dezenas de outras espécies. Que com cesta de vime, acompanhava o nono na colheita de uva niágara do parreiral que dividia o terreno do lado sul, enquanto ao norte a divisa era marcada por pés de araucária. Quanto ao lado leste, imensos abacateiros margeavam a estrada poeirenta onde raras vezes no dia se elevava o pó vermelho por conta da passagem de carros... Que catava caramujos no meio do cafezal e ouvia neles o som do mar desconhecido, do qual nem foto havia visto... que ouvia O guarani na abertura d’A voz do Brasil -“Em Brasília, 19 horas” - e que se calava quando as mulheres ouviam a radionovela. Que pegou gosto pela leitura por ver a mãe lendo A pata da gazela, Éramos seis e outros títulos (de onde os emprestava??). Que quis queimar etapas na escola por não gostar de fazer fumaça de trator, pois já tinha a coordenação motora adequada para a caligrafia. Que declamava o “Ich bin kleine” e brincava de Tango tango tango morena é do carrapicho... lia Seleções e Anuário evangélico... pintava com as canetinhas Silvapen de seis cores e molhava o lápis de cor na língua para obter uma tonalidade mais vibrante... que conheceu a cor de maravilha e a cor de abóbora... A menina que muitas vezes precisava de um “acabamento” após o banho... que convivia com o ruído forte do gerador de eletricidade e que via a luz se esvair aos poucos até apagar-se sem interruptor... (dizia o avô que a vida também se esvai dessa forma...) Que quando se feria e o mertiolate não resolvia, entregava-se ao santo “restofoida, cregofoida...” que tudo curava... a que presenciou o milagre de um papel mergulhado num líquido se transformar em fotografia em branco e preto... um estúdio dentro de casa, muitas peças, muitos recipientes, papel branco...líquidos, e a revelação da imagem! Fantástico!!Monóculos - coisa mágica! Caixas de fotografias!! E a televisão? O telefone?? O que eram?!

Friday, June 20, 2008

Quintana

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...
Espelho Mágico

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.
Caderno H
Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?
Caderno H

Sunday, June 15, 2008

Descobrindo

que todos somos falíveis, mas que alguns se consideram
acima de Deus, e insistem em fazer a sua própria justiça,
impondo a vingança de forma vil, irracional e injusta.

Descobrindo

que pessoas gastam precioso tempo de suas vidas preocupadas
mais com o mal dos outros do que com o próprio bem.

Descobrindo

que viver remoendo pretéritos enterrados é uma espécie
de lazer para muitos indivíduos...

Descobrindo tantas outras coisas...

Saturday, June 14, 2008

Com o frases como essa ficam por aí anônimas?
Vou apropriar-me!! hehe

"Deixe que as pessoas
falem de ti com ciumes,
pois a flor preciosa
necessita de estrume
para se tornar
mais viçosa."




Friday, June 13, 2008

Os compositores colocam no início
das partituras indicações sobre o tempo e o espírito com que devem ser tocadas: Allegro vivace, Largo, Allegretto, Lantgsam und sehnsuchtsvoll, Andante espressivo, Grave, etc. Acho que os escritores deveriam fazer a mesma coisa com seus textos. As pessoas lêem mal porque não sabem o ritmo e o espírito do texto.

Rubem Alves


"Sou o que sou:
o silêncio após o mas
e o ou

fui o que fui:
um ruído entre
o constrói e o rui."

José Paulo Paes

"Há dois tipos de pessoas: as que fazem as coisas e as que ficam com os louros. Procure ficar no primeiro grupo: há menos competição lá."
(Indira Gandhi)

"A inveja é um vírus q se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes, O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde"
(Zuenir Ventura -Inveja - Mal Secreto )
.

Thursday, June 12, 2008

Perdoar é próprio dos ânimos generosos, mas guardar rancor é coisa de homens ásperos e cruéis, baixos e de casta ruim; isto a mesma natureza o mostra nos animais mudos.

(Juan Luis Vives, in 'Introdução à Sabedoria')



Um homem nunca deve envergonhar-se por reconhecer que se enganou, pois isso equivale a dizer que hoje é mais sábio do que era ontem.

(Jonathan Swift)

Os preguiçosos estão sempre a falar do que tencionam fazer, do que hão-de realizar; aqueles que verdadeiramente fazem alguma coisa não têm tempo de falar nem sequer do que fazem.

(Goethe)

Pessoa (ma-ra-vi-lho-so)

"Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?"

"Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer."

"Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta."

Sunday, June 8, 2008

Solidão

 Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar ou fazer sexo ...
Isto é carência

Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe,
as vezes, para realizar os pensamentos...
Isto é equilíbrio

Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe
compulsoriamente para que revejamos a nossa vida ...
Isto é principio da natureza

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado
Isto é circunstância
Solidão é muito mais que isso.

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa Alma.


FRANCISCO BUARQUE DE HOLANDA




Friday, June 6, 2008

Considerações sobre a Vingança

Considerações sobre a Vingança










A vingança é uma espécie de justiça bárbara, de tal maneira que quanto mais a natureza humana se inclinar para ela, tanto mais a deve a lei exterminá-la. Porque a primeira injúria não faz mais que ofender a lei, ao passo que a vingança da injúria põe a lei fora do seu ofício. De certo, ao exercer a vingança, o homem iguala-se ao inimigo; mas, passando sobre ela, é-lhe superior; porque é próprio do príncipe perdoar. E tenho a certeza que Salomão disse: «É glorioso para um homem desdenhar uma ofensa». O que passou, passou, e é irrevogável; os homens prudentes já têm bastante que fazer com as coisas presentes e vindouras; não devem, portanto, preocupar-se com bagatelas como o trabalhar em coisas pretéritas.
Não há homem que faça o mal pelo mal, mas apenas na perseguição do lucro, do prazer ou da honra, etc. Porque hei-de ficar ressentido com alguém, apenas pela razão de que ele mais ama a si próprio do que a mim? E se alguém me fez mal, apenas por pura maldade, então, esse é unicamente como a roseira e o cardo que picam e arranham apenas porque não podem de outra forma proceder. A espécie mais tolerável de vingança ainda é aquela que vai contra ofensas que na lei não encontram remédio; mas, por isso, acautelai-vos, investigando se realmente não haverá para cada ofensa uma punição legal; caso contrário, o vosso inimigo ganhará vantagem, porque aliado à lei, terá dois votos contra vós. Alguns, quando exercem vingança, desejam que a pessoa saiba donde partiu o golpe. Isso é mais generoso, porque o prazer parece estar não tanto em arremessar o golpe como em obrigar o inimigo a arrepender-se, mas os covardes, baixos e vis, são como a seta que voa na escuridão.

Francis Bacon, in 'Ensaios - Da Vingança'

Filosofia de almanaque

De almanaque de farmácia mesmo:

Diferença entre Ciúme, Ambição e Inveja.

Qual dos três é mais nocivo?

Aposte!!

É a inveja!

Vejamos:
Ciúme: consiste em querer preservar o que tenho.

Ambição: consiste em desejar o que ainda não tenho.

Inveja: consiste em não querer que o outro tenha!

É isso aí! Há pessoas que gastam mais tempo coupando-se de cuidar do mal dos outros do que do seu próprio bem! Terrivel!

Thursday, June 5, 2008

Viva e depois esqueça

Trechos sobre a importância de se esquecer coisas que nos são prejudiciais:

"...algumas pessoas simplesmente são apagadas da memória como filmes desimportantes. Sem maldade, apenas esmaecem até desaparecer.
É impossível nos lembrar de todos os que passaram por nós ou sermos lembrados por todos: gente demais, espaço de menos.
Da mesma forma que minha história está repleta de coadjuvantes e figurantes que, irrefletidamente, se auto-proclamavam protagonistas, eu devo ser a personagem cômica da história de alguuém...
...só nos desenroscamos e seguimos nosso rumo natural, quando eliminamos alguns fatos e seres que, do contrário, nos prenderiam aos emaranhantes aguapés de recordações e sentimentos tão marcantes quanto inúteis...
O passado deve ser mantido no lugar dele e não trazido pregado as costas como um fardo com os erros cometidos e alegrias nunca mais revividas.
Para ser feliz é necessário pouca coisa além se livrar do excesso de carga e esquecer as coisas certas.
É útil também jamais perder de vista um detalhe, afixá-lo no espelho do banheiro, repetir como um mantra: absolutamente nada é pra sempre, nem sentimentos que parecem ser. Todo mundo passa..."

(Não sei de quem é a autoria).


Wednesday, June 4, 2008

O desafio das linguagens

O desafio das linguagens do século XXI para a aprendizagem na escola.

Palestra com o prof. Pedro Demo.

Alguns recortes:

(com ironia) "A aula é uma coisa tão boa que só resta ao aluno copiar."

Sobre a fluência tecnológica, PD afirma aquilo que já sabemos: "Crianças são nativas; adultos são imigrantes."

Tuesday, June 3, 2008

A coisa mais difícil do mundo é conhecermo-nos a nós mesmos, e o mais fácil é falar mal dos outros.
(Tales de Mileto)

Não és bom porque te louvam, nem desprezível porque te censuram; és o que és, e o que poderão dizer de ti, não te fará melhor do que vales aos olhos de Deus.

(Autor desconhecido)

Qualquer um pode zangar-se, pois isso é muito simples. Mas zangar-se com a pessoa adequada, no grau exato, no momento oportuno, com o propósito justo e de modo correto, isso não é tão fácil.
(Aristóteles - Ética a Nicómaco)

Somos mais pais do nosso futuro do que filhos do nosso passado.
(Miguel de Unamuno)

Os preguiçosos estão sempre a falar do que tencionam fazer, do que hão-de realizar; aqueles que verdadeiramente fazem alguma coisa não têm tempo de falar nem sequer do que fazem.
(Goethe)

Sunday, June 1, 2008

ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
- ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

(Mário Quintana)