Saturday, September 25, 2010

O valioso tempo dos maduros

O valioso tempo dos maduros




Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas..
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

(Mario de Andrade)

Sunday, May 23, 2010




Viva intensamente cada momento como se fosse único...


torne seu viver mágico

torne seu fazer prazeroso

transforme tudo que esta em sua volta em realização.

A perfeição é obra de nosso senhor;

Mas começa exatamente por ti...

Brilhe, sim brilhe não espere que a luz de outros te clareiem.

Não aceite o pouco, quando pode Tudo!!!



Seja ...

Transforme...

Brilhe...

Seja feliz....

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

Saturday, May 1, 2010

Velho tema - Vicente de Carvalho

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

Saturday, April 10, 2010

Carta para não ser enviada

(Carta do espaço sideral para não ser enviada a Angie)  - 31 de janeiro 2009
(Caio Fernando Abreu)



“Vem, que eu quero te mostrar o papel cheio de rosas nas paredes do meu novo quarto, no último andar, de onde se pode ver pela pequena janela a torre de uma igreja. Quero te conduzir pela mão pelas escadas dos quatro andares com uma vela roxa iluminando o caminho para te mostrar as plumas roubadas no vaso de cerâmica, até abrir a janela para que entre o vento frio e sempre um pouco sujo desta cidade.
Vem, para subirmos no telhado e, lá do alto, nosso olhar consiga ultrapassar a torre da igreja para encontrar os horizontes que nunca se vêem, nesta cidade onde estamos presos e livres, soltos e amarrados.

Quero controlar nervoso o relógio, mil vezes por minuto, antes de ouvir o ranger dos teus sapatos amarelos sobre a madeira dos degraus e então levantar brusco para abrir a porta, construindo no rosto um ar natural e vagamente ocupado, como se tivesse sido interrompido em meio a qualquer coisa não muito importante, mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim.

Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da Suécia na beirada da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis, dos meus muitos ou nenhuns eus.

Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque tenho medo e estou sozinho, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.”

Sunday, March 14, 2010

Sonetos Florbela Espanca



Inconstância



Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulugiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumvrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo.
Que há-de partir também... nem eu sei quando...

Florbela Espanca


Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca



De joelhos

"Bendita seja a Mãe que te gerou."
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, para te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer...
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver...

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!

Florbela Espanca





Saudades



Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca

Friday, March 12, 2010

O que as mulheres querem?


Mulheres,


o que realmente querem?

O jovem Rei Arthur foi surpreendido pelo monarca do reino vizinho enquanto caçava furtivamente em um bosque. O Rei poderia tê-lo matado no ato, pois tal era o castigo para quem violasse as leis da propriedade, contudo se comoveu ante a juventude e a simpatia de Arthur e lhe ofereceu a liberdade, desde que no prazo de um ano trouxesse a resposta a uma pergunta difícil. A pergunta era: O que realmente as mulheres querem?



Semelhante pergunta deixaria perplexo até ao homem mais sábio, e ao jovem Arthur lhe pareceu impossível de respondê-la. Contudo aquilo era melhor do que a morte, de modo que regressou a seu reino e começou a interrogar as pessoas. À princesa, à rainha, às prostitutas, aos monges, aos sábios, ao palhaço da corte... em suma, a todos! E ninguém soube dar uma resposta convincente. Porém todos o aconselharam a consultar a velha bruxa, porque somente ela saberia a resposta. O preço seria alto, já que a velha bruxa era famosa em todo o reino pelo exorbitante preço cobrado pelos seus serviços.

Chegou o último dia do ano acordado e Arthur não teve mais remédio se não recorrer à feiticeira. Ela aceitou dar-lhe uma resposta satisfatória, com uma condição: primeiro aceitaria o preço. Ela queria casar-se com Gawain, o cavaleiro mais nobre da mesa redonda e o mais íntimo amigo do Rei Arthur!

O jovem Arthur a olhou horrorizado: era feíssima, tinha um só dente, desprendia um fedor que causava náuseas até a um cachorro, fazia ruídos obscenos, nunca havia topado com uma criatura tão repugnante. Se acovardou diante da perspectiva de pedir a um amigo de toda a sua vida para assumir essa carga terrível. Não obstante, ao inteirar-se do pacto proposto, Gawain afirmou que não era um sacrifício excessivo em troca da vida de seu melhor amigo e a preservação da Mesa Redonda.

Anunciadas as bodas, a velha bruxa, com sua sabedoria infernal, disse:

- O que realmente as mulheres querem é: ser soberanas de suas próprias vidas!

Todos souberam no mesmo instante que a feiticeira havia dito uma grande verdade e que o jovem Rei Arthur estaria salvo. Assim foi. Ao ouvir a resposta, o monarca vizinho lhe devolveu a liberdade. Porém, que bodas tristes foram aquelas... toda a corte assistiu e ninguém se sentiu mais desgarrado entre o alívio e a angústia, que o próprio Arthur. Gawain se mostrou cortês, gentil e respeitoso. A velha bruxa usou de seus piores hábitos, comeu sem usar talheres, emitiu ruídos e um mau cheiro espantoso.

Chegou a noite de núpcias. Quando Gawain, já preparado para ir para a cama aguardava sua esposa. Ela apareceu como a mais linda e charmosa mulher que um homem poderia imaginar! Gawain ficou estupefato e lhe perguntou o que havia acontecido. A jovem lhe respondeu com um sorriso doce, que como havia sido cortês com ela, a metade do tempo se apresentaria com aspecto horrível e a outra metade com aspecto de uma linda donzela.



Então ela lhe perguntou. Qual ele preferiria para o dia e qual para a noite? Que pergunta cruel! Gawain se apressou em fazer cálculos. Poderia ter uma jovem adorável durante o dia para exibir a seus amigos e a noite na privacidade de seu quarto uma bruxa espantosa. Ou, quem sabe, ter de dia uma bruxa e a uma jovem linda nos momentos íntimos de sua vida conjugal.


O nobre Gawain respondeu que a deixaria escolher por si mesma. Ao ouvir a resposta ela anunciou que seria uma linda jovem de dia e de noite, porque ele a havia respeitado e permitido ser dona de sua vida.







Colaboração de Alex Teixeira



Enviada em 12/07/1999

Relendo Clarice

Estou relendo Perto do coração selvagem, e, além das frases na abertura deste blog,  trago mais algumas:



"Estou cansada, agora agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada".




"... como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione? Como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma suas quatro paredes? E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuissem?"

Thursday, February 18, 2010

Nothing can keep me from you



Nothing can keep me from you - Kiss

Wherever you are, that's where i'm gonna be
No matter how far, you'll never be that far from me
Some how i would find you, move heaven and earth to be by yourside
Oh i'd walk, this world to walk, beside you

No mountain could ever stand between us
No ocean could ever be that wide
No river too deep to keep your love from me
I swear it's the truth
Nothing can keep me from you
There's no race that i would not go to
No distance would ever be too far
To keep me away i'd always find a way
To show you it's true
Nothing can keep me from you
Nothing can keep me from you

I gave you my word; i would be there for you
And you can be sure there's no mountain that
I would not move
Just to lie beside you spend my whole life
Lookin in your eyes
Yeah i swear, i'm there for you, forever

No mountain could ever stand between us
No ocean could ever be that wide
No river too deep to keep your love from me
I swear it's the truth
Nothing can keep me from you

And i would go anywhere to be anywhere you are
And i would do anything just to hold you in my arms
Nothing can stop a love this strong
Yeah i swear, i'm there, for you forever

No mountain could ever stand between us
No ocean could ever be that wide
No river to deep to keep your love from me
I swear it's the truth
Nothing can keep me from you
There's no race that i would not go to
No distance would ever be too far
To keep me away i'd always find a way to show
You it's true

Nothing can keep me
No, nothing can keep me from you
No mountain, no ocean, no river
Nothing can keep me from you
No mountain, no ocean, no river
No mountain, no ocean, no river
Nothing can keep me from you



Nada pode me Afastar de Você

Onde quer que você esteja , eu estarei
Não importa a distância,
Você nunca estará longe de mim
Alguém como eu a encontraria,
Moveria o céu e a terra para estar ao seu lado
Oh eu caminharia este mundo, para caminhar ao seu lado

Refrão
Nenhuma montanha poderia estar entre nós
Nenhum oceano poderia ser tão largo
Nenhum rio tão fundo para afastar seu amor de mim
Eu juro é a verdade
Nada pode me afastar De Você
Não há raça que eu não seria
Nenhuma distância seria tão longa
Para me afastar, eu sempre acharia um modo
Para mostrar a você que isto é verdade
Nada pode me afastar De Você
Nada pode me afastar De Você

Eu lhe dei minha palavra; Eu estaria lá para você
E você pode estar segura
Não há nenhuma montanha que
Eu não moveria
Só descansar ao seu lado passar minha vida inteira
Olhando em seus olhos
Sim eu juro, eu estou lá para você, sempre,

Refrão
Nenhuma montanha poderia estar entre nós
Nenhum oceano poderia ser tão largo
Nenhum rio tão fundo para afastar seu amor de mim
Eu juro é a verdade
Nada pode me afastar De Você

Ponte
E eu iria a qualquer lugar
Para estar onde você está
E eu faria qualquer coisa
Apenas para te segurar em meus braços
Nada pode parar um amor tão forte
Sim eu juro, eu estou lá, para você sempre

Nenhuma montanha poderia estar entre nós
Nenhum oceano poderia ser tão largo
Nenhum rio tão fundo para afastar seu amor de mim
Eu juro é a verdade
Nada pode me afastar De Você
Não há raça que eu não seria
Nenhuma distância seria tão longa
Para me afastar, eu sempre acharia um modo
Para mostrar a você que isto é verdade

Nada pode me afastar
Não, Nada pode me afastar de Você
Nenhuma montanha, Nenhum oceano, Nenhum rio,
Nada pode me afastar de Você
Nenhum montanha, Nenhum oceano, Nenhum rio,
Nenhum montanha, Nenhum oceano, Nenhum rio,
Nada pode me afastar de Você

Tuesday, February 16, 2010

O temporal



O temporal
 Nos dias felizes da infância, observar os desenhos que se autoconstruíam no céu, conforme o deslocamento das nuvens, era uma alegria ímpar. Nada era mais agradável do que passar longos minutos dizendo: “Veja, um cachorro”.... “uma galinha...” “...um navio...” uma surpresa, uma descoberta a cada sopro do vento
Via carneirinhos, borboletas, girafas, elefantes, bichos que nunca havia visto de verdade, apenas nos livros da escola. Animais agigantados, gordos, que se formavam e deformavam, inofensivos, frágeis como nossa própria existência... que desapareciam enquanto outras formas ocupavam seus lugares. Os objetos, os monstros, a floresta, tudo o que era formado por esse material efêmero, maravilhavam-me de tal forma que era constante a minha busca sempre  e mais por essa grande ilusão real ao alcance de meus olhos e de minha mente,  criança que era,  sem opções, recursos, tendo ao meu redor todo o universo, toda a natureza, todos os sons e cores e encantamentos.
Eram 4 da tarde de domingo. A família, que representava o refúgio, o esconderijo contra os perigos conhecidos e imaginários, reunida na varanda, falava de assuntos sérios, que, para mim, não passavam de amenidades: do feijão que estava brotando, do café que  estava florindo, do bezerro que nascera.
Ruidoso e relampejante, como um monstro ameaçador, o barulho crescia e o temporal obrigou-me a me esconder debaixo da mesa, lugar seguro conforme as minhas avaliações infantis. Meus irmãos, igualmente se esconderam no mesmo espaço, e numa atitude inacreditável, demo-nos as mãos julgando assegurar maior proteção. Repentinamente, uma escuridão foi tomando conta do horizonte, aproximando-se rápida, trazendo consigo ansiedade, medo, pavor, desespero. Assustada, sentia os minutos passarem velozes, e a noite, como por mágica, antecipar-se obrigando os adultos a reforçarem as trancas das janelas e das portas,  a se agruparem na cozinha, que era o espaço que parecia mais acolhedor...
Os relâmpagos clareavam o ambiente, o fogão a lenha crepitava e os trovões, como bombas, feriam nossos ouvidos e nos punham em completo pânico.
Dentro de nós, o monstro do medo crescia, e, lá fora, as árvores se retorciam impulsionadas pelos ventos velozes.
Minha avó, cristã de berço, mas supersticiosa em sua vivência sofrida, pegou punhadinhos de sal entre os dedos e lançou sobre as chamas do fogão, desenhando uma cruz. Isso acalmava o meu coração, e  me restituía, se não toda, um pouco da esperança de que não seríamos atingidos pelo raio, nem levados pelo vento...
Como para finalizar apoteoticamente aquele evento, um estrondo acelera todos os corações refugiados ao redor do fogo benzido, e, a certeza de que era o fim, me fez desfalecer. Acordei, segundos, minutos ou horas depois, e fui levada para fora a fim de verificar o grande pé de araucária estendido a um metro da parede de onde estávamos.
Eliana MAR

Amor, Estranho Amor




Amor, Estranho Amor

Ela chegou cabisbaixa trazendo um buquê. Jamais gostei de flores, mas com o tempo acabei me acostumando. O tempo faz com que nos acostumemos a tudo.
Permaneceu alguns instantes de pé, ainda cabisbaixa e imersa em um silêncio que, de tão denso, deixava transparecer, por entre sua cortina negra, um certo receio, um temor canhestro, talvez culpado, culpado por algo que o perfume das flores tentava em vão dissimular.
Por fim sentou-se, suspirou e ergueu a face: tinha os olhos transbordados em lágrimas que, pouco a pouco, foram transfigurando o seu rosto com caminhos parecidos com rios, rios negros deslizando por um leito árido, difuso, tortuoso.
Seus lábios sedentos aguardavam aquela inundação que nunca vinha, que não matava a sede daquela boca que calava tempos, sóis, sentimentos, palavras sepultadas vivas em um terreno infértil. Nada nascia, nenhum sussurro, apenas silêncio.
Retirou o lenço do casaco e enxugou os olhos. Olhou-me daquela vez tão ternamente, que não pude deixar de achá-la mais linda do que quando nos separamos, há cinco anos.
Enfim, ela sorria.
Deu-me ótimas notícias das crianças. Contou-me que Paulinho já freqüentava a sua tão sonhada faculdade de medicina e que Lucinha, a minha pequena Lucinha, já estava com tudo acertado para o seu casamento no início do ano. Disse-me mais uma infinidade de coisas relativas às crianças, que não pude ouvir bem, porque foram ditas em meio a lágrimas que novamente brotavam nos olhos de minha eterna namorada.
Em meio a soluços dissimulados, confessou-me que sentia saudades e maldisse a vida seguidas vezes, ao mesmo tempo em que amassava entre as mãos as flores que trouxera para mim.
Calou-se um tempo e chorou como se estivesse arrependida ou por demais cansada daquela vida vivida longe de mim. Disse-me que se sentia muito sozinha. Paulinho, agora na universidade, passava muito pouco tempo em casa; Lucinha iria se casar no início do ano... Ela não suportaria a solidão.
Quis dizer que eu também me sentia assim, raras eram as visitas que eu recebia, pouquíssimos amigos, um ou outro parente, de vez em quando as crianças, e ela, sempre ela...
Eu também estava muito sozinho. Mas não disse nada. Deixei que ela chorasse um pouco... um pouco mais que das outras vezes, mas, quando se recompôs, tinha novamente aquele seu sorriso único, que nenhuma outra mulher conseguiria apresentar. A pele alva, os olhos lindos. Outra vez minha amada, minha eterna e inseparável amada.
Olhou-me calada, como se sentisse pena de mim. Quis recriminá-la pelo ato, mas ela foi mais rápida que o meu iminente protesto e novamente se pôs a falar.
Perguntou-me se eu me lembrava do Marcos. Como não me lembraria?
Ele sempre jantava conosco nos fins de semana, as crianças o adoravam. É claro que eu me lembrava. Era meu melhor amigo, amigo de sinuca, do chope de fim de tarde no Leblon, amigo de lida...
Estavam prestes a namorar.
Aí residia a razão daquele suspeito remorso calado, daquela culpa cabisbaixa que o perfume das flores tentava esconder. Aí estava a dor de todo aquele pranto.
Senti algo me incomodando, talvez ciúme, talvez medo de perdê-la para sempre.
Mas nós já nos havíamos perdido um do outro há tempos; já não havia caminhos que nos levassem a um mesmo fim. Éramos impossíveis um ao outro. Havíamos nos desprendido um do outro como uma fruta se desprende da árvore e apodrece no chão.
Ela ainda se mantinha florida, ainda corria em seu tronco a seiva que talvez pudesse me reanimar, avivar-me para mais primaveras, para mais flores, para que eu fosse mais frutos... Mas eu já apodrecia inerte, sem forças nem esperanças de um dia germinar.
Era preciso aceitar tudo. Não é difícil aceitar, fazer-se aceitar geralmente é mais complexo. Foram anos e anos de convivência. Não, não de convivência: de cumplicidade. Sim, sempre fôramos cúmplices um do outro.
Era preciso aceitar.
Porém, quando pensei em dizer que até me sentia feliz por ela, por nossas crianças, por sua visita, por tudo, ela se ergueu. Olhos inchados de tanto pranto, as flores ainda na mão, olhou-me ternamente, baixou o véu negro sobre seu belo rosto e, com um gesto singelo, postou as flores sobre meu túmulo e partiu.

Rinaldo Brandão.



"O sinal da auto-soberania é a experiência de ser elevado e de ter todos
os direitos. Para pessoas assim nenhuma tempestade de falta de paz, seja
grande ou pequena, surgirá. As situações se tornarão um presente para
elevar o estágio delas. A riqueza da auto-soberania é o conhecimento, as
virtudes e os poderes. Onde quer que haja preenchimento haverá
contentamento. Não haverá sequer um traço de falta de aquisição. Ser
ignorante de desejos limitados é ser rico."

Dialética




Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Vinícius de Moraes

Clarice Lispector



"... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso."


Clarice Lispector

Jeito de mato


Jeito de mato - Paula Fernandes

De onde é que vem esses olhos tão tristes?
Vêm da campina onde o sol se deita
Do regalo de terra que o teu dorso ajeita
E dorme serena no sereno e sonha

De onde é que salta essa voz tão risonha?
Da chuva que teima, mas o céu rejeita
Do mato, do medo, da perda tristonha
Mas que o sol resgata, arde e deleita

Há uma estrada de pedra que passa na fazenda
É teu destino, é tua senda, onde nascem tuas canções
As tempestades do tempo que marcam tua história
Fogo que queima na memória e acende os corações

Sim, dos teus pés na terra nascem flores
A tua voz macia aplaca as dores
E espalha cores vivas pelo ar
Sim, dos teus olhos saem cachoeiras

Sete lagoas, mel e brincadeiras
Espumas, ondas, águas do teu mar

De onde é que vem esses olhos tão tristes?
Vêm da campina onde o sol se deita
De onde é que salta essa voz tão risonha?

Dorme serena no sereno e sonha
Dorme serena e sonha...

Minha força

                    Tempestade de neve no mar, William Turner, 1842


Minha força está na solidão.
Não tenho medo nem das chuvas tempestivas
nem das grandes ventanias soltas,
pois eu também sou o escuro da noite.

C.L.

Fernando Pessoa


"O meu passado é tudo quanto não consegui ser.
Nem as sensações de momentos idos me são saudosas:
o que se sente exige o momento;
passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto."

Fernando Pessoa


Reinventaria tudo de novo...
criaria um mundo que me
fizesse pleno de mim
a derramaria à calmaria
uns pinguinhos de raios,
relâmpagos e trovoadas,,,
morreria se ñ pudesse em
mim, buscar essas possibilidades!
E se vc nunca percebeu, UM MAR REVOLTO
é mil vezes mais frutífero do que uma calmaria
sem gosto de nada...

Naquele, há a esperança/certeza de mudanças
verdadeiras e reais...
Neste, tudo é tão só florzinhas...que dá um cansaço...

Procuro o autor

Shakespeare



De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
È astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

(Soneto 96) Shakespeare


“Dizem que para o amor chegar não há dia
Não há hora
E nem momento marcado para acontecer.
Ele vem de repente e se instala
No mais sensível dos nossos órgãos... o coração.
Começo a acreditar que sim.
Mas percebo também que pelo fato deste momento
Não ser determinado pelas pessoas
Quando chega, quase sempre os sintomas são arrebatadores
Vira tudo às avessas e a bagunça feliz se faz instalada.
Quando duas almas se encontram o que realça primeiro
Não é a aparência física, mas a semelhança das almas.
Elas se compreendem e sentem falta uma da outra
Se entristecem por não terem se encontrado antes
Afinal tudo poderia ser tão diferente.
No entanto sabem que o caminho é este
E que não haverá retorno para as suas pretensões.
É como se elas falassem além das palavras
Entendessem a tristeza do outro, a alegria e o desejo
Mesmo estando em lugares diferentes.
Quando almas afins se entrelaçam
Passam a sentir saudade uma da outra
Em um processo contínuo de reaproximação
Até a consumação.
Almas que se encontram podem sofrer bastante também,
Pois muitas vezes tais encontros acontecem
Em momentos onde não mais podem extravasar
Toda a plenitude do amor
Que carregam, toda a alegria de amar
E de querer compartilhar a vida com o outro,
Toda a emoção contida à espera do encontro final.
Desejam coisas que se tornam quase impossíveis,
Mas que são tão simples de viver.
Como ver o mar, o pôr-do-sol...
Ou de caminhar por uma estrada com lindas árvores
Ver a noite chegar
Ir ao cinema e comer pipocas
Rir e brincar...
Brigar às vezes,
Mas fazer as pazes com um jeitinho muito especial.
Amar e amar, muitas vezes...
Sabendo que logo depois poderão estar juntas de novo
Sem que a despedida se faça presente.
Porém muitas vezes elas se encontram em um tempo
E em um espaço diferente
Do que suas realidades possam permitir.
Mas depois que se encontram
Ficam marcadas ... tatuadas
E ainda que nunca venham a caminhar para sempre juntas
Elas jamais conseguirão se separar
E o mais importante
Terão de se encontrar em algum lugar.
Almas que se encontram jamais se sentirão sozinhas
Porquanto entenderão, por si só, a infinita necessidade
Que têm uma da outra para toda a eternidade.”


Desconheço o autor.

Tudo no mundo


"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.
 Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim.
Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane,
só consigo a simplicidade através de muito trabalho."

(C.L.)

Fique de vez em quando só


Fique de vez em quando só, senão será submergido.
Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa.
Clarice Lispector

"Ide pois aos vossos campos e pomares,
E lá aprendereis que o prazer da abelha é de sugar o mel da flor,
Mas que o prazer da flor é de entregar o mel à abelha.
Pois, para a abelha, uma flor é uma fonte de vida.
E para a flor uma abelha é mensageira do amor.
E para ambas, a abelha e a flor,
Dar e receber o prazer
É uma necessidade e um êxtase".

A abelha e a flor -- Khalil Gibran

Nuvem



Mas o que quer dizer este poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? - respondi triunfante.
Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...
Mário Quintana

Friday, January 1, 2010

Viva e depois esqueça


A capacidade de esquecer é o que existe de mais precioso sobre a face da terra, sob as nossas faces. Amar é sem dúvida mais magnânimo, mas não é tão vital quanto o esquecimento: é ele que nos mantém vivos. O amor torna a paisagem mais bonita, mas é o bálsamo curativo do esquecimento que nos faz ter vontade de abrir os olhos para vê-la. A paixão empresta um sentido quase mítico aos dias, mas é esquecer da excruciante tristeza perante a morte dela que nos torna aptos para nos encantarmos novamente. Já esqueci amores inesquecíveis e sobrevivi a paixões que, tinha convicção, me matariam se terminasse. Às vezes cruzo na rua com fantasmas que já foram bem vivos na minha história e não deixo de sentir uma certa melancolia por perceber que aquele rosto um dia cheio de significado se tornou tão relevante quanto um outdoor de pasta de dente, por não conseguir sequer recordar o que me moveu em direção a ela: algumas pessoas simplesmente são apagadas da memória como filmes desimportantes. Sem maldade, apenas esmaecem até desaparecer. É impossível nos lembrar de todos os que passaram por nós ou sermos lembrados por todos: gente demais, espaço de menos. Da mesma forma que minha história está repleta de coadjuvantes e figurantes que, irrefletidamente, se auto proclamam protagonistas (e hoje foram reduzidos a um punhado de reminiscências engraçadas), eu devo ser personagem cômico da história de alguma ex: ninguém esquiva da experiência constrangedora de bancar o bobo da corte no reino de alguém.
Mas essa morte não vem sem um certo pesar. É ruim notar que já não significamos praticamente nada para quem importou tanto. Na verdade é dolorido ser olvidado por qualquer um (golpes no ego doem, independentes de quem os defira): não é fácil encarar que não somos insubstituíveis nem vitais e que a nossa saída displicente abre uma possibilidade de entrada tão desejada por outros. Mas só nos desenroscamos e seguimos nosso rumo natura, em frente, quando eliminamos alguns fatos e seres que, caso contrário, nos prenderia aos emaranhados aguapés de recordações e sentimentos tão marcantes quanto inúteis.
“Há pessoas que ficam doendo com a lembrança de outra pessoa, entra ano, sai ano, virando e revirando o caleidoscópio, olhando como caem e se dispõe as cores e os cristais do sofrimento”.(Paulo Mendes Campos). O passado deve ser mantido no lugar dele e não trazido pregado as costas como um fardo com os erros cometidos e alegrias nunca mais revividas. Para ser feliz é necessária pouca coisa além de se livrar do excesso de carga e esquecer as coisas certas. É inútil também jamais perder de vista um detalhe, afixa-lo no espelho do banheiro, repetir como um mantra: absolutamente nada é para sempre, nem sentimento que parecem ser (a vida seria um lago estagnado se só existisse o perene). Nunca mais haverá amor como aquele? Ótimo, porque o novo é tão imenso que seria um disperdício se algo se repetisse. Todo mundo passa. E é bom que seja assim.
(Ailin Aleixo)