Thursday, September 8, 2011


DEBAIXO DOS SEUS CASCOS

Hoje
domingo à noite
nesta sala quieta
desta casa quieta
nesta quieta montanha
o tempo
mais uma vez
finge estar parado
enquanto as horas
mudas passam a galope.

Marina Colasanti

Sunday, May 8, 2011



"[...] O que te direi? te direi os instantes. Exorbito-me e só então é que existo e de 
 um modo febril. Que febre: conseguirei um dia parar de viver? ai de mim que 
 tanto morro. Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, 
tenho por dom a  paixão, na queimada de tronco seco contorço-me às labaredas. 
À duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser 
 concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo 
 que lateja no tique-taque dos relógios. 
Para me interpretar e formular-me preciso de novos sinais e articulações novas 
 em formas que se localizem aquém e além de minha história humana. 
 Transfiguro a realidade e então outra realidade sonhadora e sonâmbula, me cria.
 E eu inteira rolo e à medida que rolo no chão vou me acrescentando em folhas, 
 eu, obra anônima de uma realidade anônima só justificável enquanto dura a 
 minha vida. E depois? depois tudo o que vivi será de um pobre supérfluo. [...] 

C L (Água viva)

Wednesday, April 27, 2011

Notícias de maria Joana

Lindo anúncio de Maria Joana... transcrevi aqui apenas a parte inicial, e colocaria o meu próprio nome em lugar do dela...


CORREIO DO POVO – 27/09/73
Maria Joana Knijnick, solteira, procura [...]. O interessado deve ser pessoa sensível, que goste de  ouvir música, seja alegre, que goste de passear domingo de manhã, que goste de pescar, que  goste de passear na relva úmida da manhã, que seja carinhoso, que sussurre aos meus ouvidos que me ama, que tenha bom humor, mas que também saiba chorar. Que saiba escutar o canto dos pássaros, que não se importe de dormir ao relento numa noite de lua, que saiba caminhar nas estrelas, que goste de tomar banho de chuva, que sonhe acordado e que goste muito do azul do céu. Prefere-se pessoa que saiba escutar os segredos de um riacho e que não ligue aos marulhos do mar; que goste de bife com arroz e feijão, mas que prefira peru com maçã, dá-se preferência a pessoas de pés quentes, que gostem de andar de barco, que gostem de amar e que não puxem as cobertas de noite. Não se exige que seja rico, de boa aparência, que entenda Kafka ou saiba consertar eletrodomésticos mas exige-se principalmente que goste de oferecer flores de vez em quando.
End.: Rua da Esperança, 43
CORREIO DO POVO – 02/10/73
Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O
interessado deverá ser pessoa sensível e que tenha o hábito de oferecer flores.
End.: Rua da Esperança, 43
CORREIO DO POVO – 10/10/73

Artur Oscar Lopes

Friday, March 11, 2011

http://www.youtube.com/watch?v=KJh9GxEU5oE

Se eu morrer amanhã



Se eu morrer amanhã,
Pedirei apenas uma coisa:
Que possa, mesmo que por um instante,
Olhar para trás.

Certamente, rirei de minha inocência
Enquanto fui criança.
E logo depois chorarei,
Sofrendo terrivelmente
Por tê-la perdido.

Me divertirei com tolas preocupações
Que afligiram a minha adolescência.
E sentirei um desejo aterrador
De viver isso novamente.
Para fazer tudo igual,
Embora diferente.

Se eu morrer amanhã,
Verei que amava minha vida
E minha família
Muito mais do que imaginava.
E me arrependerei amargamente
De não ter gritado isso aos quatro ventos.

Me arrependerei tanto...
De projetos maravilhosos que nunca foram realizados.
De sentimentos raros que não foram revelados.
E de todo tempo gasto diante da televisão.
Me arrependerei de não ter ido aos lugares que quis,
De não ter provado todos os sabores,
E de não ter beijado todas a bocas que desejei.

Se eu morrer amanhã,
Sentirei falta de coisas que não me pareciam tão importantes.
Sentirei falta da chuva,
E do cheiro que deixava na terra.
Sentirei falta do barulho do mar,
E do sol.
Sentirei muita falta do sol
E de todos os crepúsculos que eu não vi.

Sentirei falta de absolutamente tudo.
Ate mesmo do que nunca me importou.
E sofrerei com uma imensa angustia
Que me fará buscar com desespero
Coisas boas,
Das quais não irei me arrepender.

Então lembrarei de todos os meus amigos,
E de todas as pessoas que me surpreenderam.
E também das que me decepcionaram,
E das que me perdoaram.
E lembrarei das poucas vezes em que me senti feliz
Sem qualquer motivo especial para isso.
E das vezes em que me permiti errar
E acertei.

Se eu morrer amanhã,
Tentarei achar em minha vida
Um sentido filosófico
E uma beleza poética.
E conseguirei.
E daí me deixarei aquietar,
E sentirei a paz que todos buscam.
E um sentimento de profunda gratidão
Por ter apenas vivido.
Como todas as pessoas,
Mas não como qualquer pessoa.

Se eu morrer amanhã,
Pedirei, mesmo sabendo que em vão,
Para voltar.
E ai viver intensamente,
E fazer tudo o que desejar.
Sabendo usar o tempo
Que eu nunca soube usar.
E ver tudo de outra maneira,
Com uma alma serena
E um coração muito mais quente.
Que seria como tudo em minha vida.
Que não seria nada morna, nem nada cinza.
E que não teria nem um minuto que não fosse de extrema felicidade,
E de plena consciência.

Se eu morrer amanhã,
Viverei todos os momentos de minha vida
Em poucos instantes.
E ai então, entenderei tudo.
E rirei de mim mesma,
E de minhas esperanças,
E de minhas aflições.

Pois deitara sobre mim uma sabedoria plena,
E então eu saberei
Que disso tudo eu sempre soube.
E que se não fosse morrer amanhã,
Nada mudaria.
Embora saiba que a vida
Um dia
Realmente acaba.

* * *
Caroline Dienstmann

Friday, February 18, 2011

O AMOR DOS HOMENS


O AMOR DOS HOMENS

Vinícius de Morais


Na árvore em frente
Eu terei mandado instalar um alto-falante com que os passarinhos
Amplifiquem seus alegres cantos para o teu lânguido despertar.
Acordarás feliz sob o lençol de linho antigo
Com um raio de sol a brincar no talvegue de teus seios
E me darás a boca em flor;
 minhas mãos amantes
Te buscarão longamente e tu virás de longe, amiga
Do fundo do teu ser de sono e plumas
Para me receber;
nossa fruição
Será serena e tarda, repousarei em ti
Como o homem sobre o seu túmulo, pois nada
Haverá fora de nós.
Nosso amor será simples e sem tempo.
Depois saudaremos a claridade. Tu dirás
Bom dia ao teto que nos abriga
E ao espelho que recolhe a tua rápida nudez.


Em seguida teremos fome: haverá chá-da-índia
Para matar a nossa sede e mel
Para adoçar o nosso pão.
Satisfeitos, ficaremos
Como dois irmãos que se amam além do sangue
E fumaremos juntos o nosso primeiro cigarro matutino.
Só então nos separaremos.
Tu me perguntarás
E eu te responderei, a olhar com ternura as minhas pernas
Que o amor pacificou, lembrando-me que elas andaram muitas léguas de mulher
Até te descobrir.
Pensarei que tu és a flor extrema
Dessa desesperada minha busca;
que em ti
Fez-se a unidade.
De repente, ficarei triste
E solitário como um homem, vagamente atento
Aos ruídos longínquos da cidade, enquanto te atarefas absurda
No teu cotidiano, perdida, ah tão perdida
De mim.
 Sentirei alguma coisa que se fecha no meu peito
Como pesada porta. 


Terei ciúme
Da luz que te configura e de ti mesma
Que te deixas viver, quando deveras
Seguir comigo como a jovem árvore na corrente de um rio
Em demanda do abismo.
Vem-me a angústia
Do limite que nos antagoniza. Vejo a redoma de ar
Que te circunda – o espaço
Que separa os nossos tempos.
Tua forma
É outra: bela demais, talvez, para poder
Ser totalmente minha. Tua respiração
Obedece a um ritmo diverso. Tu és mulher.
Tu tens seios, lágrimas e pétalas.
À tua volta
O ar se faz aroma. Fora de mim
És pura imagem; em mim
És como um pássaro que eu subjugo, como um pão
Que eu mastigo, como uma secreta fonte entreaberta
Em que bebo, como um resto de nuvem
Sobre que me repouso.


Mas nada
Consegue arrancar-te à tua obstinação
Em ser, fora de mim – e eu sofro, amada
De não me seres mais.
Mas tudo é nada.
Olho de súbito tua face, onde há gravada
Toda a história da vida, teu corpo
Rompendo em flores, teu ventre
Fértil.
Move-te
Uma infinita paciência. Na concha do teu sexo
Estou eu, meus poemas, minhas dores
Minhas ressurreições. Teus seios
São cântaros de leite com que matas
A fome universal. 


És mulher
Como folha, como flor e como fruto
E eu sou apenas só.
 Escravizado em ti
Despeço-me de mim, sigo caminhando à tua grande
Pequenina sombra. Vou ver-te tomar banho
Lavar de ti o que restou do nosso amor
Enquanto busco em minha mente algo que te dizer
De estupefaciente.
Mas tudo é nada.
São teus gestos que falam, a contração
Dos lábios de maneira a esticar melhor a pele
Para passar o creme, a boca
Levemente entreaberta com que mistificar melhor a eterna imagem
No eterno espelho.


E então, desesperado
Parto de ti, sou caçador de tigres em Bengala
Alpinista no Tibet, monje em Cintra, espeleólogo
Na Patagônia. Passo três meses
Numa jangada em pleno oceano para
Provar a origem polinésica dos maias.
Alimento-me
De plancto, converso com as gaivotas, deito ao mar poesia engarrafada, acabo
Naufragando nas costas de Antofagasta.
 
Time, Life e Paris-Match
Dedicam-me enormes reportagens. Fazem-me
O "Homem do Ano" e candidato certo ao Prêmio Nobel.
Mas eis comes um pêssego. Teu lábio
Inferior dobra-se sob a polpa, o suco
Escorre pelo teu queixo, cai uma gota no teu seio
E tu te ris.
Teu riso
Desagrega os átomos. O espelho pulveriza-se, funde-se o cano de descarga


Quantidades insuspeitadas de estrôncio-90
Acumulam-se nas camadas superiores do banheiro
Só os genes de meus tataranetos poderão dar prova cabal de tua imensa
Radioatividade. Tu te ris, amiga
E me beijas sabendo a pêssego. E eu te amo
De morrer.
Interiormente
Procuro afastar meus receios: "Não, ela me ama..."
Digo-me, para me convencer, enquanto sinto
Teus seios despontarem em minhas rnãos
E se crisparem tuas nádegas.
Queres ficar grávida
Imediatamente. Há em ti um desejo súbito de alcachofras. Desejarias
Fazer o parto-sem-dor à luz da teoria dos reflexos condicionados
De Pavlov.
Depois, sorrindo
Silencias. Odeio o teu silêncio
Que não me pertence, que não é
De ninguém: teu silêncio
Povoado de memórias. 


Esbofeteio-te
E vou correndo cortar o pulso com gilete-azul;
meu sangue
Flui como um pedido de perdão. Abres tua caixa de costura
E coses com linha amarela o meu pulso abandonado, que é para
Combinar bem as cores; em seguida
Fazes-me sugar tua carótida, numa longa, lenta
Transfusão.
Eu convalescente
Começas a sair: foste ao cabeleireiro. Perscruto em tua face. Sinto-me
Traído, delinqüescente, em ponto de lágrimas. Mas te aproximas
Só com o casaco do pijama e pousas
Minha mão na tua perna. E então eu canto:
Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza
Corrói minha carne como um ácido! Teu signo
É o da destruição! Nada resta
Depois de ti senão ruínas! Tu és o sentimento
De todo o meu inútil, a causa
De minha intolerável permanência!


Tu és
Uma contrafação da aurora! Amor, amada
Abençoada sejas: tu e a tua
Impassibilidade. Abençoada sejas
Tu que crias a vertigem na calma, a calma
No seio da paixão.
Bendita sejas
Tu que deixas o homem nu diante de si mesmo, que arrasas
Os alicerces do cotidiano. Mágica é tua face
Dentro da grande treva da existência.
Sim, mágica
É a face da que não quer senão o abismo
Do ser amado. Exista ela para desmentir
A falsa mulher, a que se veste de inúteis panos
E inúteis danos.
Possa ela, cada dia
Renovar o tempo, transformar
Uma hora num minuto. Seja ela
A que nega toda a vaidade, a que constrói


Todo o silêncio.
Caminhe ela
Lado a lado do homem em sua antiga, solitária marcha
Para o desconhecido – esse eterno par
Com que começa e finda o mundo – ela que agora
Longe de mim, perto de mim, vivendo
Da constante presença da minha saudade
É mais do que nunca a minha amada: a minha amada e a minha amiga
A que me cobre de óleos santos e é portadora dos meus cantos
A minha amiga nunca superável
A minha inseparável inimiga.

Wednesday, February 2, 2011

Sófocles


" Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas a maior maravilha é o homem. Através do mar que começa a clarear, impelido pelo vento do sul, ele (o homem) avança e passa sob as vagas volumosas que rugem em torno dele. A divindade superior a todas as outras, a Gué imortal', inesgotável, ele consegue cansá-la com seus arados que, ano após ano, vão e voltam por cima dela, revolvendo-a com animais de raça eqüina.
E a tribo dos pássaros ligeiros, ele a apreende e captura; as hordas de animais selvagens e os seres marinhos do oceano, o homem inventivo apanha-os nas dobras das redes tecidas. Ele domina também, por meio de armadilhas, o animal agreste, montanhês; e, o cavalo de pescoço felpudo, o homem há de conduzi-lo sob o jugo que o mantém preso dos dois lados, fazendo o mesmo com o incansável touro das montanhas.

E a língua, e o pensamento alado e os costumes controlados, ele os aprendeu da mesma forma como soube fugir das investidas, em pleno ar, das penosas geadas e das chuvas importunas, pois que ele é fecundo em recursos; nada lhe falta absolutamente para qualquer instante do futuro que dele se aproxima; somente diante de Hades não encontrará ele meios de fugir; mas, apesar disto, ele imaginou um modo de curar as doenças contra as quais nada podia fazer para defender-se delas.
Dotado, em sua habilidade, de uma engenhosidade inesperada, ele pende ora para o mal, ora para o bem, confundindo as leis da terra e o direito que jurou pelos deuses observar, quando se acha à frente de uma cidade; ele se torna indigno de tal cargo quando pratica o mal em sua audácia. Não se assente em meu lar, não tenha nenhum pensamento comum comigo, aquele que age dessa maneira " (Antígona, I vv. 333-375).

Tuesday, February 1, 2011

Carta sobre a felicidade - Epicuro



CARTA SOBRE A FELICIDADE (a Menescau)
    Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la.

Friday, January 28, 2011

Rosa

Recebi a linda imagem e a frase de minha prima Sandra, que, embora esteja longe geograficamente, está muito perto do meu coração... ela é, como eu, apaixonada por Clarice Lispector...

Tuesday, January 25, 2011


"Gosto de pessoas e amores inteiros...
Porque não sei me dar pela metade nem por partes.
Eu Transbordo
! (CC)

Monday, January 24, 2011

Mas da lua ela não tinha receio porque era mais lunar que solar e via de olhos bem abertos nas madrugadas tão escuras a lua sinistra no céu. Então ela se banhava toda nos raios lunares, assim como havia os que tomavam banhos de sol. E ficava profundamente límpida.(CL - Livro dos prazeres)



Sunday, January 23, 2011

Domingo

"Domingo é o dia dos ecos – quentes, secos, e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas, gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas – de onde vêm os ecos de domingo? Eu que detesto domingo por ser oco." (CL - Água viva)



Cada vida é sensível...


A maior decepção




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Saturday, January 22, 2011

Quando eu nasci - Sebastião da gama


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Friday, January 21, 2011

Pedro, o homem da flor


Foto By AC
Fragmento: "... (Pedro) sabe de coisas. Sabe, por exemplo, Que a rosa branca encanta as mulheres morenas, enquanto as louras, invariavelmente, preferem rosas vermelhas. Fiel às suas observações, é incapaz de oferecer rosas brancas às mulheres louras, ou vice versa. Se entra num bar e as flores de sua cesta são todas de uma só cor, não coincidindo com o gosto comum às mulheres presentes, nem chega a oferecer sua mercadoria. Vira as costas e sai em demanda de outro bar, onde estejam mulheres louras, ou morenas, se for o caso."

Foto By AC
Texto completo:

Pedro - o homem da flor


Se você se enquadra entre aqueles que se dizem boêmios ou, pelo menos, entre aqueles que costumam ir, de vez em quando, a um desses muitos barzinhos elegantes de Copacabana, é provável que já tenha visto alguma vez Pedro - o homem da flor. Se, ao contrário, você é de dormir cedo, então não. Então você nunca viu Pedro - o homem da flor - porque jamais ele circulou de dia não ser lá, na sua favela do Esqueleto.

Quando anoitece, Pedro pega a sua clássica cestinha, enche de flores, cujas hastes teve o cuidado de enrolar em papel prateado, e sai do barraco rumo à Copacabana, onde fica até alta madrugada, entrando nos bares - em todos os bares, porque Pedro conhece todos - vendendo rosas. Quando a cesta fica vazia, Pedro conta a féria e vai comer qualquer coisa no botequim mais próximo. Depois volta para casa como qualquer funcionário público que tivesse cumprido zelosamente sua tarefa, na repartição a que serve.

Conversei uma vez com Pedro - o homem da flor. Já o vinha observando quando era o caso de estar num bar em que ele entrava. Vira-o chegar e dirigir-se às mesas em que havia um casal. Pedia licença e estendia a cesta sobre a mesa. Psicologia aplicada, dirão vocês, pois qual homem que se nega a oferecer flor à moça que o acompanha, quando se lhe apresenta a oportunidade? Sim, talvez Pedro seja um bom psicólogo mas, mais que isso, é um romântico. Quando o homem mete a mão no bolso e pergunta quanto custa a flor, depois de ofertá-la à companheira, Pedro responde com um sorriso:

- Dá o que o senhor quiser, moço. Flor não tem preço.

Como eu ia dizendo, conversei uma vez com Pedro e, desse dia em diante, temos conversado muitas vezes. Ele sabe de coisas. Sabe, por exemplo, Que a rosa branca encanta as mulheres morenas, enquanto as louras, invariavelmente, preferem rosas vermelhas. Fiel às suas observações, é incapaz de oferecer rosas brancas às mulheres louras, ou vice versa. Se entra num bar e as flores de sua cesta são todas de uma só cor, não coincidindo com o gosto comum às mulheres presentes, nem chega a oferecer sua mercadoria. Vira as costas e sai em demanda de outro bar, onde estejam mulheres louras, ou morenas, se for o caso.

O pequeno buquê de violetas - quando as há - é carinhosamente arrumado pelas suas mãos grossas de operário, assim como também as hastes prateadas das rosas. Saibam todos os que fizeram os fregueses de Pedro - o homem da for - que aquele papel prateado artisticamente preso na haste das rosas e que tanto encantava as moças foi antes um comum papel de maços de cigarros vazios, que o próprio Pedro recolheu por aí, nas suas andanças pela madrugada.

Sei que Pedro ama sua profissão, tira dela o seu sustento, mas acima de tudo esforça-se por dignificá-la. Não vê que seria um mero mercador de flores! Lembro-me da vez em que, entrando pelo escuro do bar, trouxe nas mãos a última rosa branca para a moça morena que bebia calada entre dois homens. Quando as três levantaram a cabeça ante a sua presença, pudemos notar - eu, ele e as demais pessoas presentes - que a moça era linda, de uma beleza comovente, suave, mas impressionante. Pedro estendeu-lhe a rosa sem dizer uma palavra e, quando um dos rapazes quis pagar-lhe, respondeu que absolutamente era nada. Dava-se por muito feliz por Ter tido a oportunidade de oferecer aquela flor à moça que lá estava. E sem ousar olhar novamente pra ela, e disse:

- Mais flores eu daria se mais flores eu tivesse!

Assim é Pedro - o homem da flor. Discreto, sorridente e amável, mesmo na sua pobreza. Vende flores quase sempre e oferece flores quando se emociona. Foi o que aconteceu na noite em que, mal chegado à Copacabana, viu o povo que rodeava o corpo do homem morto, vítima de um mal súbito. Só depois que soube que Pedro o conhecia do tempo em que era porteiro de um bar no Lido. Na hora não. Na hora ninguém compreendeu, embora todos se comovessem com seu gesto, ali abaixado a colocar todas as suas flores sobre as mãos do homem morto. Pois foi o que Pedro fez, voltando em seguida para a sua favela do Esqueleto.

Naquela noite, não trabalhou.

Stanislaw Ponte Preta,
Dois amigos e um chato, Moderna

When I look into your eyes



When I Look Into Your Eyes
(Firehouse)

I see forever when I look in your eyes
You're all I ever wanted I always want you to be mine

 Let's make a promise 'till the end of time
We'll always be together, and our love will never die

So here we are face to face and heart to heart

I want you to know we will never be apart
Now I believe that wishes can come true
'Cause I see my whole world. I see only you

When I look into your eyes
I can see how much I love you
And it makes me realize
When I look into your eyes
I see all my dreams come true
When I look into your eyes

I've looked for you all of my life
Now that I've found you, we will never say goodbye
I can't stop this feeling, there's nothing I can do

'Cause I see everything, when I look at you

When I look into your eyes
I can see how much I love you
And it makes me realize
When I look into your eyes
I see all my dreams come true
When I look into your eyes

Ohhhh

When I look into your eyes
I can see how much I love you and it makes me realize
When I look into your eyes
We will always be together, and our love will never die

When I look into your eyes
I see all my dreams come true, when I look into your eyes
When I look into your eyes




Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância
sóis e sombras.
Vou dizer coisas terríveis à gente que passa. Dizer que não é mais possível comunicar-me.
[Em todos os lugares o mundo se comprime.] Não há espaço para sorrir ou bocejar de tédio. [...] Os homens amando sem amar, ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor... Serei eu
A revelar o escuro das janelas, eu Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo?
Iniciei mil vezes o diálogo.Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos[...]

Roteiro do Silêncio - Hilda Hilst


" Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.
Sou irritável e firo facilmente.
Também sou muito calmo e perdoo logo.
não esqueço nunca.
Mas há poucas coisas de que eu me lembre."  (Clarice Lispector)

Precisamos nos parecer

É preferível

Ano Novo