Friday, February 17, 2012

O moço que não tinha nome


Caravaggio - Rapaz levando um cesto de frutas 
O moço que não tinha nome


Era um moço que não tinha nome. Nem nunca tinha tido. Um moço que, não tendo nome, também não tinha rosto.
-Psiu! - chamavam-no as pessoas.
E ele, acostumado desde pequeno, atendia.
Porém, quando se aproximava, quem o tinha chamado via em lugar do rosto dele seu próprio rosto refletido, como num espelho. E enchia-se de espanto.
Assim, sem olhos ou sorriso que fossem seus, ninguém conseguia escolher um nome que ele se ajustasse, tornando-o único, impossível de ser confundido com qualquer outro.
Era muita ausência para ele carregar. E cedo decidiu que, tão logo estivesse crescido, dono enfim da sua vida, partiria à procura do rosto que lhe pertencia e que, certamente, havia de estar perdido em alguma parte do mundo.
Chegada a idade, juntou suas coisas, saiu da aldeia e começou a andar.
Andou e andou. Nos castelos que lhe davam hospedagem, examinava ansioso os quadros e as tapeçarias, aproximava-se atento das esculturas, mesmo as mais miúdas que enfeitavam às vezes uma sopeira de prata ou o cabo de um talher. Quem sabe, entre tantos cavalheiros retratados, entre tantos homens pintados e bordados, não estaria algum cujo rosto, por engano ou descuido, fosse o seu? Até sobre os bastidores das damas se debruçava, na esperança de que o ponto que vinham de fazer estivesse arrematando um nariz, o traço de uma sobrancelha que a ele caberia.
Desse modo viajava, fazendo seu rumo como quem atravessa um rio pulando de pedra em pedra.
Passava de uma cidade a outra, de uma casa a outra, sempre procurando, nas famílias que se reuniam ao redor das lareiras, nas multidões das feiras, e até nos broches de esmalte que enfeitavam os decotes, nos camafeus e nas pedras entalhadas dos anéis.
Sem nunca, naqueles anos todos, afastar seu caminho da procura.
E nesse caminho, um dia, encontrou uma moça que voltava da fonte.
Ia tão atenta para não entortar o cântaro equilibrado no alto da cabeça, que nem o viu chegar pela trilha. E quando ele se aproximou, oferecendo-se para carregar o cântaro, foi com surpresa agradecida que encarou o rosto vazio. Mais do que com espanto.
Andando devagar, para prolongar a caminhada, o moço acompanhou-a até em casa. Mas na manhã seguinte, bem cedo, foi esperá-la na fonte. E quando ela chegou, novamente se ofereceu para carregar o cântaro.
Assim aconteceu também no outro dia, e nos que vieram depois. Agora já se demoravam sentados à beira da nascente, conversando sem pressa, enquanto o tempo escorria junto com o regato. E a cada novo encontro, ela olhava os próprios olhos refletidos nele e os via ficarem mais brilhantes, olhava a sua boca e só lhe via sorrisos.
Pouco a pouco, a ausência do rosto foi perdendo a importância. O moço tinha tantas coisas para contar, tanta doçura na voz, que ela passou a achá-lo mais e mais bonito. Era como se nada lhe faltasse.
Nem mesmo o nome. Pois não precisava chamá-lo, já que sempre o encontrava à sua espera, não importava a hora em que chegasse.
Porém, na fonte, começavam a boiar as primeiras folhas mortas. O regato, que tinha levado o verão, lentamente levou o outono. E afinal o inverno chegou, engolindo as tardes em seu ventre frio. Breve a fonte gelaria. E a moça percebeu que, sem água para buscar, não teria mais desculpa para sair de casa.
Envolta no xale, ainda foi à fonte durante alguns dias. Mas naquela manhã em que as beiradas do regato começavam a fazer-se de cristal, o medo de perder o moço atravessou-a como um vento. Quis retê-lo, chamá-lo. Em ânsia estendeu-lhe as mãos. E quase sem sentir, num sopro, Amado! foi o nome que lhe deu.
Ondejou seu reflexo no rosto do moço.
Lentamente, seus olhos espelhados perderam a nitidez, desfez-se o contorno dos lábios. Naquele vazio, só restava uma névoa. E na névoa, trazidos de longe pelo chamado de um nome, começaram a aflorar duas sobrancelhas espessas, depois a aresta de um nariz, a sólida linha de um queixo, a ampla testa.
Traços cada vez mais nítidos, desenhando o rosto enfim encontrado.
Pingentes de gelo formavam-se nas folhas.
Adensavam-se as nuvens. Mas ele, o homem que agora tinha rosto e nome, sorria como um sol.

Marina Colasanti

Sunday, February 12, 2012

I will always love you

How to forget this movie, thins scene?
Stay with God, Whitney Houston!

The greatest love of all

Eis uma canção que me envolve, primeiramente, pela música, em seguida, pela voz, em terceiro, pela letra...
"the greatest love off all is happening to me..."


Sunday, February 5, 2012

Não estás deprimido, estás distraído…



Poesia de Fagundo Cabral 

Não estás deprimido, estás distraído… distraído da vida que te povoa. Tens coração, cérebro, alma e espírito… então como podes te sentir pobre e azarado?
Distraído da vida que te rodeia: golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios. Não caia no erro de teu irmão, que sofre por um ser humano quando o mundo tem 5,6 bilhões. Além disso, não é tão ruim viver só. Eu vivo bem, decidindo a cada instante o que quero fazer. E graças à solidão me conheço – algo fundamental para viver.
Não caias no erro de teu pai, que se sente velho porque tem 70 anos, esquecendo que Moisés conduziu o êxodo aos 80 e Rubinstein interpretava Chopin como ninguém aos 90. E isso só para citar dois casos conhecidos.
Não estás deprimido, estás distraído… Por isso acreditas que perdeste alguma coisa, o que é impossível, porque tudo te foi cedido. Tu não fizestes um único fio de cabelo em sua cabeça e, portanto, não podes ser dono de nada. Além disso, a vida não te tira coisas, mas sim te liberta das coisas. Te torna leve para poder voar mais alto, para que alcances a plenitude. Do berço ao túmulo é uma escola, de modo que aquilo que chamamos de problemas são na verdade lições. E a vida é dinâmica… por isso está em constante movimento; por isso só deves estar atento ao presente. Por isso minha mãe dizia: “Eu me encarrego do presente, o futuro é assunto de Deus”. Por isso Jesus dizia: “O amanhã não interessa; ele trará nova experiência… a cada dia basta o seu próprio afã”.
Não perdeste ninguém… o que morreu simplesmente se adiantou, porque para lá vamos todos. Além disso, o melhor dessa pessoa – o amor – segue em teu coração… Quem poderia dizer que Jesus está morto? Não há morte, há mudança… E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, Michelangelo, Whitman, Santo Agostinho, Madre Teresa, sua avó e minha mãe, que acreditava que a pobreza está mais próxima do amor, porque o dinheiro nos distrai com muitas coisas e nos distancia porque nos torna desconfiados…
Não encontro a felicidade, e é tão fácil… só deves escutar teu coração antes que intervenha tua cabeça, que está condicionada pela memória e complica tudo com coisas velhas, com ordens do passado, com prejuízos que fazem adoecer, que encarceram… A cabeça é que divide, ou seja, que empobrece; a cabeça é que não aceita que a vida é como é e não como deveria ser…
Faça somente o que ama e serás feliz. E o que faz o que ama está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando tem que chegar, porque o que deve ser será, e virá naturalmente. Não faças nada por obrigação ou por compromisso, senão por amor. Então haverá plenitude e nessa plenitude tudo é possível, sem esforço, porque te move a força natural da vida… a que me levantou quando o avião que levava minha esposa e minha filha caiu… a que me manteve vivo quando os médicos diagnosticaram-me 3 ou 4 meses de vida.
Deus te encarregou de um ser humano… e és tu. Deves fazer livre e feliz a ti mesmo. Depois poderá compartilhar a vida verdadeira com os outros. Lembre de Jesus: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Reconcilia-te contigo. Coloca-te frente ao espelho e pensa que essa criatura que estás vendo é obra de Deus e decide agora mesmo ser feliz, porque a felicidade é uma conquista, não é algo que vai chegar de fora… Além disso, a felicidade não é um direito, senão um dever, porque se não és feliz, estás amargurando a todo o bairro… um só homem que não teve nem talento nem valor para viver mandou matar cem milhões de irmãos judeus…
Há tantas coisas para gozar e nosso tempo na terra é tão curto, que sofrer é uma perda de tempo. Para desfrutar, temos a neve do inverno e as flores da primavera, o chocolate de Perugia, a baguette francesa, os tacos mexicanos, o vinho chileno, os mares e os rios, o futebol dos brasileiros e o cigarro de Ches Davillovi, as Mil e Uma Noites, a Divina Comédia, Don Quixote, Pedro Páramo, os boleros de Manzanero e a poesia de Whitman, Mahler, Brahms, Ravel, Debussy, Mozart, Chopin, Beethoven, Caravaggio, Rembrandt, Velasquez, Jesán, Picasso e Tamayo, entre tantas maravilhas.
E se tu tens câncer ou AIDS, duas coisas podem acontecer e as duas são boas: se a doença te vence, te livras do corpo, que está enfermo; “tenho fome, tenho frio, tenho sonhos, tenho desejos, tenho razão, tenho dúvidas”… E se vences a doença, serás mais humilde, mais agradecido e, portanto, mais facilmente serás feliz… Livre do tremendo peso da culpa, da responsabilidade, da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente, como deve ser.
Não estás deprimido, estás desocupado… Ajuda a criança que te pede ajuda… essa criança será sócia de teu filho. Ajuda aos velhos e os jovens te ajudarão quando tu sejas. Porque o serviço é uma felicidade segura, como desfrutar da natureza e cuidá-la para o que vier… Dá sem medidas e te darão sem medidas! Ama até converter-te no amado, mais ainda, ama até converter-te no mesmíssimo amor! E que não te confundam uns poucos homicidas e suicidas: o bem é maioria, porém não se nota porque é silencioso. Uma bomba faz mais ruído que uma carícia porém para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida… O bem se alimenta de si mesmo, e o mal destrói a si mesmo… Se os maus soubessem que bom negócio é ser bom, seriam bons ainda que fosse por puro interesse…
Não estás deprimido, estás distraído… se escutares ao “outro”, ao que levas dentro, saberias tudo… e então encontrarias algo para ti e então levarias isso constantemente e já não haveria confusão, senão matizes… E nessa serenidade não buscarias nada e então encontrarias tudo… E estando no presente dirias e farias o que deve ser dito e feito a cada momento, natural e graciosamente, sem esforço… Isso faria com que tua relação com os demais fosse plena e ao crescer no amor serias mais criativo, sem limites nem condições. A ignorância nos faz sentir encerrados e mortais, quer dizer, que nos encerramos e limitamos por nós mesmos… O medo nos distrai do amor e o sábio é valente porque sabe que não existem nem mesmo medidas…
Não estás deprimido, estás distraído das maravilhas que acontecem ao teu redor: de nascimentos a colheitas, de revoluções a concertos, de campeonatos de futebol a viagens interplanetárias… não estás deprimido por algo que aconteceu, senão distraído do TODO, que é agora mesmo.