Sunday, February 5, 2012

Não estás deprimido, estás distraído…



Poesia de Fagundo Cabral 

Não estás deprimido, estás distraído… distraído da vida que te povoa. Tens coração, cérebro, alma e espírito… então como podes te sentir pobre e azarado?
Distraído da vida que te rodeia: golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios. Não caia no erro de teu irmão, que sofre por um ser humano quando o mundo tem 5,6 bilhões. Além disso, não é tão ruim viver só. Eu vivo bem, decidindo a cada instante o que quero fazer. E graças à solidão me conheço – algo fundamental para viver.
Não caias no erro de teu pai, que se sente velho porque tem 70 anos, esquecendo que Moisés conduziu o êxodo aos 80 e Rubinstein interpretava Chopin como ninguém aos 90. E isso só para citar dois casos conhecidos.
Não estás deprimido, estás distraído… Por isso acreditas que perdeste alguma coisa, o que é impossível, porque tudo te foi cedido. Tu não fizestes um único fio de cabelo em sua cabeça e, portanto, não podes ser dono de nada. Além disso, a vida não te tira coisas, mas sim te liberta das coisas. Te torna leve para poder voar mais alto, para que alcances a plenitude. Do berço ao túmulo é uma escola, de modo que aquilo que chamamos de problemas são na verdade lições. E a vida é dinâmica… por isso está em constante movimento; por isso só deves estar atento ao presente. Por isso minha mãe dizia: “Eu me encarrego do presente, o futuro é assunto de Deus”. Por isso Jesus dizia: “O amanhã não interessa; ele trará nova experiência… a cada dia basta o seu próprio afã”.
Não perdeste ninguém… o que morreu simplesmente se adiantou, porque para lá vamos todos. Além disso, o melhor dessa pessoa – o amor – segue em teu coração… Quem poderia dizer que Jesus está morto? Não há morte, há mudança… E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, Michelangelo, Whitman, Santo Agostinho, Madre Teresa, sua avó e minha mãe, que acreditava que a pobreza está mais próxima do amor, porque o dinheiro nos distrai com muitas coisas e nos distancia porque nos torna desconfiados…
Não encontro a felicidade, e é tão fácil… só deves escutar teu coração antes que intervenha tua cabeça, que está condicionada pela memória e complica tudo com coisas velhas, com ordens do passado, com prejuízos que fazem adoecer, que encarceram… A cabeça é que divide, ou seja, que empobrece; a cabeça é que não aceita que a vida é como é e não como deveria ser…
Faça somente o que ama e serás feliz. E o que faz o que ama está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando tem que chegar, porque o que deve ser será, e virá naturalmente. Não faças nada por obrigação ou por compromisso, senão por amor. Então haverá plenitude e nessa plenitude tudo é possível, sem esforço, porque te move a força natural da vida… a que me levantou quando o avião que levava minha esposa e minha filha caiu… a que me manteve vivo quando os médicos diagnosticaram-me 3 ou 4 meses de vida.
Deus te encarregou de um ser humano… e és tu. Deves fazer livre e feliz a ti mesmo. Depois poderá compartilhar a vida verdadeira com os outros. Lembre de Jesus: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Reconcilia-te contigo. Coloca-te frente ao espelho e pensa que essa criatura que estás vendo é obra de Deus e decide agora mesmo ser feliz, porque a felicidade é uma conquista, não é algo que vai chegar de fora… Além disso, a felicidade não é um direito, senão um dever, porque se não és feliz, estás amargurando a todo o bairro… um só homem que não teve nem talento nem valor para viver mandou matar cem milhões de irmãos judeus…
Há tantas coisas para gozar e nosso tempo na terra é tão curto, que sofrer é uma perda de tempo. Para desfrutar, temos a neve do inverno e as flores da primavera, o chocolate de Perugia, a baguette francesa, os tacos mexicanos, o vinho chileno, os mares e os rios, o futebol dos brasileiros e o cigarro de Ches Davillovi, as Mil e Uma Noites, a Divina Comédia, Don Quixote, Pedro Páramo, os boleros de Manzanero e a poesia de Whitman, Mahler, Brahms, Ravel, Debussy, Mozart, Chopin, Beethoven, Caravaggio, Rembrandt, Velasquez, Jesán, Picasso e Tamayo, entre tantas maravilhas.
E se tu tens câncer ou AIDS, duas coisas podem acontecer e as duas são boas: se a doença te vence, te livras do corpo, que está enfermo; “tenho fome, tenho frio, tenho sonhos, tenho desejos, tenho razão, tenho dúvidas”… E se vences a doença, serás mais humilde, mais agradecido e, portanto, mais facilmente serás feliz… Livre do tremendo peso da culpa, da responsabilidade, da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente, como deve ser.
Não estás deprimido, estás desocupado… Ajuda a criança que te pede ajuda… essa criança será sócia de teu filho. Ajuda aos velhos e os jovens te ajudarão quando tu sejas. Porque o serviço é uma felicidade segura, como desfrutar da natureza e cuidá-la para o que vier… Dá sem medidas e te darão sem medidas! Ama até converter-te no amado, mais ainda, ama até converter-te no mesmíssimo amor! E que não te confundam uns poucos homicidas e suicidas: o bem é maioria, porém não se nota porque é silencioso. Uma bomba faz mais ruído que uma carícia porém para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida… O bem se alimenta de si mesmo, e o mal destrói a si mesmo… Se os maus soubessem que bom negócio é ser bom, seriam bons ainda que fosse por puro interesse…
Não estás deprimido, estás distraído… se escutares ao “outro”, ao que levas dentro, saberias tudo… e então encontrarias algo para ti e então levarias isso constantemente e já não haveria confusão, senão matizes… E nessa serenidade não buscarias nada e então encontrarias tudo… E estando no presente dirias e farias o que deve ser dito e feito a cada momento, natural e graciosamente, sem esforço… Isso faria com que tua relação com os demais fosse plena e ao crescer no amor serias mais criativo, sem limites nem condições. A ignorância nos faz sentir encerrados e mortais, quer dizer, que nos encerramos e limitamos por nós mesmos… O medo nos distrai do amor e o sábio é valente porque sabe que não existem nem mesmo medidas…
Não estás deprimido, estás distraído das maravilhas que acontecem ao teu redor: de nascimentos a colheitas, de revoluções a concertos, de campeonatos de futebol a viagens interplanetárias… não estás deprimido por algo que aconteceu, senão distraído do TODO, que é agora mesmo.

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